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Thursday, November 26, 2020
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Santos

Há muitas Santos. Umas fáceis, outras escondidas. Tem a da maresia que nubla a orla e aquela por onde ainda…

By Redação , in Cássio Zanatta Coluna Geral News & Trends , at 10/11/2020

Há muitas Santos. Umas fáceis, outras escondidas. Tem a da maresia que nubla a orla e aquela por onde ainda passam bondes. A dos velhos jogando dominó e a dos moleques de bicicleta, que pedalam em ziguezague e ainda matam um do coração.

     Tantas. Não fosse assim, a cidade se chamaria Santo.

     Há a Santos dos oito anos, quando quebrei a perna e fui de gesso à praia durante todo o verão. Gesso que não me deixava entrar no mar, mas deixava entrar areia e coceira.

     Tem a da primeira paixão e do amor a Beatriz, o maior de todos, maior que esse lagoão onde já vi até tartaruga e golfinho.

     Há também a das andanças do fim de tarde, quando o mar descansa as ondas e, de um lado, a luz acende e, do outro, o sol apaga. A da linha de trem onde brincávamos e, cheios de coragem, atravessávamos o túnel escuro e úmido, temendo que o trem surgisse de repente. Da descoberta da miopia: quando me apontavam os navios no horizonte, eu só imaginava.

     Menos a Santos do Monumento aos Andradas ou a do Museu Pelé, bem mais aquela do mar escuro, raramente verde ou azul, com suas bolachas do mar, siris branquelos e raspadinhas.

     A de quando meus pais me perderam na praia, mas bastou seguir os desenhos que eu fazia com palito de sorvete na areia, para encontrar um aglomerado de gente, eu agachado no meio.

     Santos onde assisti a “Tubarão” e nunca mais entrei no mar sem estar meio veiaco. Mar de Santos que dificulta para o suicida se afogar: para ser encoberto pela água, ele tem que andar, andar e andar, até quem sabe desistir da ideia.

     Onde detrás do morro sai o Cruzeiro e do mar, os cruzeiros. Mais da água de coco da barraca do Simeão que de Coca-Cola. Da maré que ora baixa, ora sobe; ora convida, ora repele, dependendo do humor da lua.   

     Da destemida Realejo, livraria de rua (como fica melhor) cheia de alma, onde a gente sempre encontra o livro que não está procurando. Da Vila, onde é tão melhor assistir aos jogos sem importância do que os clássicos tensos, para poder ouvir os comentários dos artistas.

      Onde os canais localizam mais os endereços que os bairros.

      Da ressaca invadindo a avenida e destruindo a mureta para nos lembrar do fim do mundo. Dos prédios tortos ensinando ao mundo que equilíbrio não é tudo nesta vida. Da cotia curiosa que surge das folhagens e atravessa as ruas do Orquidário.

     Que nunca faltem as famílias que, nas noites quentes de verão, se reúnem no jardim da praia num círculo de cadeiras, para conversar e conviver.

     Aliás, como sentíamos a diferença de temperatura entre São Paulo e Santos: um era sereno e garoa, e o outro, um forno aberto. Hoje não é mais assim, parece que Santos não é mais tão quente, ou foi São Paulo que se esqueceu de como faz frio.

     Santos onde Maria e Pedro, ainda engatinhando, conheceram o mar e o horizonte que desenha o traço do infinito.     

     Muitas cidades: a de dentro, a de fora, a do centro, a da orla, a de ontem, a de agora. Cada gosto encontra a sua.

     Santos mares da baía de todas as Santos.

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