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São Pedro cafajeste

São Pedro cafajeste Todo menino tem suas diferenças com São Pedro. Em especial, com sua predileção em fazer chover nos…

By Redação , in Coluna , at 24/11/2015

CassioZanata

São Pedro cafajeste

Todo menino tem suas diferenças com São Pedro. Em especial, com sua predileção em fazer chover nos fins de semana. Quem nunca saltou da cama, sabadão promissor, animado com algum programa, pegou a bola correndo, a prancha de isopor deixada de sentinela ao lado da porta, enfiou a mochila preparada na véspera, engoliu o pão com manteiga em duas dentadas e deu de cara com uma chuvinha fina, insistente, salpicando na janela?

Fosse aquele temporal bom, que faz lama e barro e até inventa novas diversões, mas não; é aquela lenga-lenga que desanima o cristão. Forte o suficiente para estragar o dia e fraca o suficiente para humilhar a gente. Disse uma vez um primo: “Ê, São Pedro cafajeste!”. Perdoe a blasfêmia, meu santo. Paciência é coisa que santidade deve ter de sobra, mas que não se pode exigir de menino em dia assim.

E a dúvida: escrevo tudo o que se refere ao santo em maiúscula? É questão de fé ou de gramática?

Pior é que sempre tem um adulto para defender a chuva. “A lavoura andava precisando”. “Assim as queimadas dão uma trégua”. “Agora essa tosse sossega”. Só o cachorro trancado em casa, murcho da silva, entende nosso desalento. Não venham os grandes depois reclamar que a gente desenha na parede de casa, usa a cortina da sala como rede que estufa no golaço, ou suja todo o fogão na tentativa de fazer brigadeiro.

Aliás, em favor da chuva, deve-se dizer que ela favorece a produção dos brigadeiros. Acho que a umidade contribui para a consistência perfeita, acho, de brigadeiro só entendo a parte do consumo e do elogio.

E quando dá aquela estiada, o sol faz que vai vencer, a gente sai de casa carregado de esperança e a água volta para nos pegar no caminho? Não sei dizer se São Pedro se distrai com essas emboscadas, sei de certo que sua popularidade entre os meninos desaba. Como desaba o aguaceiro, nessas horas ele é sempre poderoso, molhador, feito para nos ensopar e jurar impossível vingança.

No entanto, a gente esquece e perdoa. Não somos santos mas somos bons. Tanto perdoei que dei a meu filho o nome do santo. Hoje, domingo, meu Pedro acordou e viu que chovia. E pelo visto, vai seguir chovendo. Melhor assim, a mãe não vai brigar se ele passar a manhã no videogame. Até já ligou para um amigo vir passar o dia jogando com ele. O amigo também se chama Pedro. E nem cercado de homenagens, o homem lá em cima se comove e manda um solzinho.

Tenha santa paciência.

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Cássio Zanatta é natural de São José do Rio Pardo, o que explica muita coisa. Escreve crônicas há um bom tempo – convenhamos, já estava na hora de aprender. © 2014.

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