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Saúde feminina: a controvérsia atrás do popular anticoncepcional Mirena

K. (identificação da personagem) estava no chuveiro quando percebeu algo errado. A jovem lavava seu longo cabelo castanho-avermelhado quando, de…

By Redação , in News & Trends Saúde & Bem-estar , at 23/01/2014 Tags:

K. (identificação da personagem) estava no chuveiro quando percebeu algo errado. A jovem lavava seu longo cabelo castanho-avermelhado quando, de repente, uma grande quantidade de cabelo caiu em direção ao ralo.

Poderia ser uma anomalia, afinal, ela tinha dado à luz a um menino há seis meses, e queda de cabelo pós-parto é algo aceitável, porém raro de acontecer; o problema, por outro lado, eram outras ocorrências além dessa.

K. havia ganhado 22 kilos e sentia cansaço durante o dia inteiro, não tinha mais relações sexuais com seu esposo, pois tinha muitas dores. Devido ao seu cansaço e mal-humor, os médicos chegaram a pensar que ela estava deprimida ou bipolar.

Além do bebê, K. só conseguia pensar em uma única coisa: alguns meses após o parto, o seu médico inseriu o DIU da marca Mirena, um dispositivo intra-uterino hormonal cada vez mais popular que pode evitar a gravidez por até cinco anos.

K. exigiu que seu ginecologista removesse o dispositivo, mas o médico não conseguiu encontrá-lo, então K. teve que fazer uma cirurgia. O DIU tinha perfurado o útero de K. e chegou ao abdômen até se alojar em seu omento, o tecido que protege e conecta os órgãos internos.

A remoção do DIU não resolveu as coisas: cicatrizes cresceram, resultando em cistos dolorosos que bloquevam alguns órgãos. K. realizou outras quatro cirurgias para remover o tecido da cicatriz, incluindo uma histerectomia (procedimento de retirada do útero), que a deixou estéril aos 24 anos de idade.

K. é uma entre mais de 1.200 mulheres norte-americanas que alegam efeitos colaterais, incluindo perfuração, doença inflamatória pélvica, gravidez ectópica e, nos casos mais extremos, como o caso de K., até mesmo histerectomia. Muitos entraram com ações contra a Bayer, que produz o Mirena, e os casos estão a caminho de se tornar uma ação coletiva.

A história de K. é extremamente incomum de um ponto de vista médico, pois, aproximadamente 2 milhões de mulheres nos EUA usam DIU – e outros milhões em todo o mundo, e a esmagadora maioria não relata nenhum incidente.

O risco de efeitos adversos como o de K. é de uma em mil, o que os médicos, a Food and Drug Administration (FDA) e, claro, a Bayer, concordam ser uma taxa aceitável e comparável a outras formas de controle de natalidade.

Muitos advogados das mulheres que entraram com a ação dizem que a empresa Bayer deveria ter feito mais para alertar os pacientes sobre os efeitos colaterais, ao invés de apenas mencioná-los na informação da bula. A Bayer rejeita isso.

“Com base na totalidade dos dados disponíveis até o momento, um perfil positivo do risco e do benefício continua a ser observado com o Mirena. A Bayer informou adequadamente todos os riscos conhecidos associados com o dispositivo desde a primeira aprovação da FDA, em 2000. Qualquer alegação de que a Bayer não advertiu esses riscos de forma clara não é baseada na verdade”, declara a empresa.

Os advogados da Bayer pediram que o juiz descartasse alguns casos, alegando que eles foram arquivados muio tempo depois das supostas lesões e, portanto, não devem ser ouvidos.

Em 2009, a Bayer em parceria com uma rede social chamada Mom Central organizou eventos de marketing, nos quais um representante da empresa apontou os benefícios do Mirena.

A FDA afirma que esta manobra violou as normas de comercialização farmacêuticas, escrevendo em uma carta para a empresa que a apresentação “enganosamente exagerou” a eficácia do anticoncepcional, e que o evento não revelou o risco do produto.

Em resposta, a Bayer minimiza o incidente dos eventos alegando que “houve apenas três encontros  – os quais reuniram um total de 80 pessoas – e que o programa foi imediatamente interrompido”.

Muitas mulheres e profissionais da área médica consideram o Mirena o melhor produto de controle de natalidade disponível no mercado.

Isso representa uma dramática mudança na opinião pública em relação ao DIU, que começou a ser vendido nos EUA na década de 1960. Embora a maioria dos primeiros DIUs era segura e eficaz, um modelo falho chamado Dalkon Shield causou tantas infecções pélvicas, algumas das quais levaram a histerectomias e, pelo menos, 18 mortes, que os fabricantes o retiraram do mercado em 1974.

Especialistas em planejamento familiar não abandonaram a ideia por trás do DIU e novos modelos foram desenvolvidos, como o ParaGard (aprovado pela FDA em 1984) e, mais tarde, o Mirena, que reduziram gradualmente o estigma causado pelo Dalkon Shield.

“A taxa de falha é algo em torno de 0,2 por cento, em comparação com 5 a 7 por cento com a pílula e os efeitos colaterais são mínimos. O DIU deve ser considerado um contraceptivo de primeira linha”, diz a Dr. Petra Casey, professora de obstetrícia e ginecologia e diretora da Clínica Mayo, especializada em contracepção,  em Rochester, Minnesota.

O risco de efeitos secundários graves do Mirena é aproximadamente o mesmo que o descrito para pílulas contraceptivas orais. Não é uma comparação perfeita, já que os dois métodos têm diferentes tipos de efeitos colaterais graves. Mas o risco mais temido com a pílula, os coágulos sanguíneos, é relatado em uma taxa de cerca de 1 a 3 mulheres entre mil, o que, novamente, é próximo do Mirena.

A Dr. Anne Burke, professora assistente de ginecologia e obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins, afirma que “a quantidade de dados indica que, embora estas complicações possam acontecer, felizmente, eles são raras. A maioria das mulheres que usa este dispositivo é capaz de usá-lo com segurança”.

Especialistas em saúde da mulher também atestam os benefícios não contraceptivos do Mirena, como a Dr. Lynne Bartholomew Goltra, obstetra do Hospital Geral de Massachusetts.

“Além de tornar o período menstrual mais leve e menos doloroso, o DIU pode diminuir a dor da endometriose e impedir algumas infecções pélvicas”, diz a Dra. Lynne. “Ele também tem sido utilizado para prevenir o desenvolvimento de hiperplasia endometrial em mulheres com risco de desenvolver câncer e é eficaz no tratamento de alguns tipos dessa doença”.

Profissionais de saúde da mulher têm incentivado um maior uso do DIU, pois ele é mais confiável que outros métodos. A gravidez é, em si, uma condição que traz risco, com complicações que vão desde a gravidez ectópica a pré-eclampsia, diabetes e infecções do trato urinário.

Gestações não planejadas podem ser ainda mais arriscadas, se a mãe não tomou precauções, tais como deixar de fumar e de consumir álcool. Entre os países desenvolvidos, os Estados Unidos têm uma das maiores taxas de gravidez indesejada, chegando a 51 por cento dos 6,6 milhões de gestações em todo o país.

Os advogados envolvidos nos casos argumentam que o sucesso do Mirena entre a maioria das mulheres não significa muito para a minoria que sofreu.

 “A Bayer, que indica na bula do DIU que a perfuração pode acontecer após a inserção, precisa explicar de maneira mais clara que a perfuração pode ocorrer muito tempo após a implantação do dispositivo”, diz James Ronca, advogado do escritório Anapol Schwartz, que representa muitas mulheres do caso contra a Bayer.

“Se 500 pessoas estivessem em um 747 e ele caísse ou houvesse algum outro incidente em que várias pessoas ficassem feridas, haveria uma investigação”, indaga James.

As 2 mil pessoas que processam a Bayer não compõem, portanto, “um número insignificante” e vale a pena uma advertência adicional, diz o advogado.

A Dra. Nancy L. Stanwood, membro da Faculdade Americana de Obstetras e do grupo de trabalho de ginecologistas sobre contraceptivos de longo prazo, diz que a veiculação judicial do caso Mirena na imprensa tem assustado mulheres que se beneficiariam muito com o dispositivo.

“É claro que aquelas matérias são projetadas para serem assustadoras e não colocam os fatos médicos no contexto apropriado. É um desserviço para as mulheres que têm uma compreensão de suas opções contraceptivas”, finaliza a Dra. Nancy.

© 2014, Newsweek.

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