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Seis horas e quase escuro

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Da janela, ela olha o outono e diz sentir uma tristeza. Mas não, o outono não é triste. Sua luz que é mais pensativa e bate de lado nas coisas, revelando os contornos. O sol se põe mais lentamente do que no resto do ano, é certo, e as estrelas dão para perder a hora. Tempo das mangas irem dormir e das primeiras mexericas e caquis. Os insetos, tão assanhados no verão, enfim nos dão sossego.

Como pode o outono ser triste? É quando os patos cruzam o céu de São Paulo assim que amanhece (pena tão pouca gente reparar). O sol dispensa o protetor. Os cobertores se libertam das gavetas. É a época de sair com o armário às costas: primeiro é casaco porque faz frio, depois, sandália que esquenta, daí vira calor de tomar sorvete para, no fim de tarde, o casaco voltar pelo arrepio que é mais de uma lembrança que do vento.

O poente até se esforça em inspirar melancolia, mas o dourado nos vidros dos prédios desviam o sentimento. Repare que as buzinas desistem do escândalo e os sons são abafados, como se estivessem sob uma manta de silêncio, bordada por todas as avós que não estão mais aqui. Mesmo os aviões pousam com mais suavidade. O vinho ganha um novo sentido para ornar com as prosas vagarosas. Há menos pretensão e notícias ruins no outono, confira as estatísticas.

Um pouco de tristeza o outono traz. Ou talvez não seja tristeza, e sim recolhimento. Os cachorros se aninham mais, é exigido mais esmero na fabricação de chocolates e as horas extras morrem de vergonha. Claro que o despertador não quer nem saber, não entende que ainda é noite, mas constate que ele é um absorvente do ódio: o malquerer que a gente lhe devota de manhã, se gasta e esvazia o rancor no resto do dia.

Todos merecíamos um terraço para contemplar, se possível com uma cadeira onde seu avô e seu pai já estiveram sentados. O cheiro de café tem uma capacidade diversa no outono. A folha seca que se desprega da árvore pensa dez vezes onde cair e, quando o faz, é com o mínimo de alarde, deixando o barulho para quando alguém se divertir pisando nela.

É a estação das sonatas e dos livros de contos. De tarde, Schubert e Machado. De noite, Debussy e Tchekov. De pensar mais na vida, de xingar menos a mãe do juiz e do fiscal do CET, de lamentar o sumiço dos coletes e de estar menos arrependido. Arrepende-se menos no outono, aproveite.

Não, não é o outono que é triste. Talvez seja a gente mesmo, essa luz, a ausência do pai, do avô, do colete, de café, cachorro ou terraço. Mas como as estações, isso passa.

Seis horas da tarde, esfriou e já está quase escuro.

 

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