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Friday, July 3, 2020
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Sob a pedra

Debaixo dessa pedra tem uma aranha. Entocada, paciente, venenosíssima. Está à minha espreita, esperou a vida inteira, sente que o…

By Redação , in Cássio Zanatta Coluna , at 09/06/2020 Tags:

Debaixo dessa pedra tem uma aranha. Entocada, paciente, venenosíssima. Está à minha espreita, esperou a vida inteira, sente que o momento é agora.

     Debaixo dessa pedra tem terra fértil, generosa, que nos pede pouco: nem é preciso muito cuidar para que ela nos dê café, cebola, cana, cebola, couve-flor, cebola. Mas melhor não, é preciso respeito: aqui estão enterrados ao menos sete apóstolos.

     As três figurinhas que faltavam para completar o álbum estão aqui debaixo. Meu cachorro e meus lápis de cor – o branco intocado. Estão enterrados o aumento de salário, o plano de saúde vencido, um brinquedo de corda quebrado, uma aposentadoria ridícula. Debaixo dessa pedra está o passaporte.

     Preciso de ajuda para remover essa pedra. Com você não posso contar, você é fraco como eu. É o caso de arrumar um trator. Não, será preciso um guindaste, a bat-corda, a usina atômica em plena força, ou o toque de uma mão que jamais me tocou. 

     Debaixo dessa pedra faz frio, um frio úmido com cheiro de mofo. Um raio caiu, pôs fogo em tudo em volta e secou a terra. Só deixou uma paineira moça e essa pedra. E debaixo dela tem nada. Melhor, tem: um segredo que conta com as duas toneladas para ficar soterrado, acessível apenas a alguns pesadelos. Uma pedra como as outras e nenhuma outra.

     Se cavar fundo, com uma pá, com os dedos, as unhas, os olhos, cavucar mais, todo o outono, cavar mais fundo e além, certo seria sair no Japão, mas vai sair em Muzambinho. 

    A cura do vírus está debaixo da pedra, numa receita simples, duas linhas escritas à mão. Os homens preferem morrer.

     Com uma pedrinha menor risquei um nome nessa pedra. Do alto dessa pedra caí e quebrei o calcanhar. Fiz sopa. Tentei trocar essa pedra por uma revistinha e riram de mim. Joguei a pedra na vidraça, ganhei um inimigo e ela de volta, na testa. Pesa muito essa pedra.

     Mas seria mesmo essa pedra? Ou aquela outra, do morro de cima, que é menor e facinha de remover? Eu a pego com a mão (peço licença às minhocas), limpo a terra em volta, assopro, ponho no bolso e levo para morar na gaveta do quarto, em companhia das fotos amareladas. 

     Todos os caminhos que resolvi não trilhar saem dessa pedra. Pensei em me sentar na sua sombra, mas o formigueiro chegou antes. Já chutei essa pedra, nela peguei carrapato, rezei, vomitei, dormi, “mijamos em comum numa festa de espuma”, bati muita cabeça e, com um martelo, dela fiz farofa.

     Onde estão todos? Cadê? Esse silêncio. Só ficou eu, um vento fora de hora, a pedra e sua majestade nenhuma.

     Pensei, pensei mesmo, que nunca mais ia me encontrar com ela. E aqui está. Encosto, ela se mexe sem resistência. Empurro, ela dá uma volta. Quer dizer que? Empurro com mais força, ela sai rolando no pasto, ganhando velocidade, barulhenta, estabanada, amassando o mato, esmagando bicho, avalanche caipira, até mergulhar no açude num alto cataplofe. Fica o silêncio do mundo assustado.

     Mas olha: debaixo da pedra tem um incontrolável sim.

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