Somos todos Brederodes

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Tudo já se disse sobre o poema “Quadrilha”, de Drummond, publicado em 1930 em “Alguma Poesia”. Não bastasse sua perfeita arquitetura, impressiona como mantém a frescura e humor quase 90 anos depois.

O que pouca gente sabe é que, verificando os originais, constatamos que houve uma alteração de última hora. Joaquim, sim, amava Lili, e de fato suicidou-se; Maria amava Joaquim, mas ficou mesmo para tia, e Lili afinal se casou com J. Pinto Fernandes, que não tinha entrado na história – literalmente. Porque na versão original, Lili se casaria com Brederodes, o que era para ter sido e que não foi. Brederodes foi riscado a caneta pelo poeta e substituído pelo nome que ficou para a posteridade.

Fato é que somos, na grande maioria, uns Brederodes. Aqueles que quase. Que, na última hora não vingaram, perderam a oportunidade, chegaram atrasados ao embarque, se atrapalharam com o mapa, ficaram presos no elevador, esqueceram o passaporte, se confundiram no momento decisivo.

Brederodes somos os que não viram a banda passar. Que perderam a noção do tempo e pelo tempo são esquecidos. Os que recusam o convite, adiam o encontro, tomam o atalho mais comprido. Todos no fim riscados a caneta para glória de outro.

Mas sejamos justos: não, não somos todos Brederodes. Há entre nós os J. Pinto Fernandes, que sempre entram na história no último momento para o desfecho feliz. Aquele, para quem a bola sobra quando goleiro e zagueiros já estão batidos; o político que vê cair no colo a inauguração da ponte 18 dias depois de tomar posse; o que pega disfarçadamente o último brigadeiro da festa; os donos dos braços para os quais Lili foge correndo antes de subir ao altar. Um cachorrão, esse J. Pinto Fernandes.

Mesmo no poema, há Brederodes mais convictos. Vide os casos de Joaquim e Maria e seus fins tristes. Fora do poema, Pete Best, o Beatle que saiu da banda a um passo dela ganhar o mundo, foi um grande Brederodes. Tancredo Neves, que teve um treco bem na véspera de tomar posse na Presidência, um raro caso de Brederodes mineiro. A Seleção Brasileira de 50, que perdeu a chance de ganhar o primeiro título mundial jogando em casa e pelo empate, merecia ser escalada assim: no gol, Brederodes; na linha de zaga, Brederodes, Brederodes, Brederodes e Brederodes na lateral esquerda; no meio, Brederodes e… bom, você entendeu.

Já tive meus dias de J. Pinto Fernandes, não posso negar. Estão aí Beatriz, Pedro e Maria para confirmar. Mas, no todo, posso dizer que honro a tradição dos Brederodes do nosso Brasil varonil. Não conquistei Fulana, não impressionei a banca, não ganhei na loteria, não aprendi a cozinhar, fracassei no bambolê, ioiô e bicicleta, levei a pior na briga, não fui convidado para a valsa de debutantes, não conheci Brasilia, não entrei no poema.

Foi praga (ou benção) de Drummond.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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