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Minha opinião sobre o cabelo da minha mulher

em Cássio Zanatta/Geral/News & Trends por
Beatriz pede minha opinião: se deve cortar o cabelo bem curto ou não.

Epa. Atenção. Estou pisando em terreno minado, bem sei. O homem que não atenta para a responsabilidade (e perigo) da situação jamais vai entender como pode o leite vir da vaca, milho virar pipoca ou como é possível estar chovendo e fazendo sol ao mesmo tempo.

O momento é grave. Exige sensibilidade e concentração na resposta. Jamais, por nadica neste mundo, comente o corte com um: “Gostava mais antes”. No compêndio dos grandes erros masculinos, esse fica apenas um ponto abaixo do “Minha nova secretária é Miss Bertioga”. Não tente sair pela tangente: um “Você que sabe, amor” revela uma personalidade fraca, para não dizer covarde. Pense bem antes de cravar o palpite. Nos cabelos da mulher mora o perigo e a salvação.

Começo meu parecer com uma constatação: seu cabelo é tão bonito. Moreno, bem brasileiro, desce tranquilo, contorna as orelhas como as curvas da estrada que desce a serra, e repousa nos ombros. Quando bate sol, ganha lá umas luzes; quando vem a noite, tem a capacidade de trocar ideias com uma ou outra estrela. É suave ao toque, ao mesmo tempo em que tem personalidade, dessa substância deve ter saído a doçura e determinação de nossos filhos.

Com o cabelo curto, seu rosto ganha um enquadramento moderno. E o principal: sua nuca é revelada ao mundo, e desde a descoberta da clarineta por Mozart o mundo exige novas e belas revelações. O vento brinca com os fios, que ora têm a vista da paisagem à esquerda, ora da direita, e nesse vai e vem dão muitas risadas. 

Já fui atropelado três vezes. É claro que você pergunta “mas o que isso tem a ver com o assunto?” Calma: é minha tentativa de defesa, de argumentar que sou meio avoado e desatento quando menos devia. E se não percebo um carro se aproximando, um ou outro corte de cabelo mais sutil pode passar batido. Não é indiferença, e sim uma estranha combinação de miopia, palermice e de como as coisas são de fato bacanas à nossa volta.

Seguindo a avaliação, acrescento que não gostaria muito que o pintasse, fizesse reflexo, nada; deixe-o como é, natural, com alguns fios brancos que, afinal, contam uma história que é minha também. No mais, acho cabelo curtinho mais prático no verão (o travesseiro também deve achar), e você vai continuar linda. Portanto, sou favorável ao corte mais voraz.  

E assim digo a ela. Sereno, mas decidido. Olho no olho. Ela sorri, ponto para mim. Se eu acertar na escolha do vinho no jantar, o amor em paz reinará sobre o mundo.

Opinião muito contrária tem o vento, que não vai achar tanta graça em ter menos com que brincar.
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Como todo Natal

em Cássio Zanatta/News & Trends/São Paulo por

Família grande é a tal coisa. No Natal, isso fica ainda mais claro, deve ser de tanta luzinha que pisca nas salas, lojas e árvores.

Todo ano morre alguém e, no entanto, a família só faz crescer. A gente nem lembra mais quem é filho de quem. A cada ano, fico mais parecido com aquela tia velha que interrompia nossa correria de criança e perguntava, apertando as bochechas: “Você é filho de quem, meu bem?”

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Uma mancha na reputação

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Minha camisa nova ganhou uma mancha de café. Minhas camisas velhas já têm cada uma sua mancha de café (quando não têm duas). Minha camisa tem sempre uma mancha de café, até no dia em que eu não tomo café.

Já me acostumei. Diante de alguém, vejo enquanto conversamos seus olhos se desviarem dos meus para a mancha e da mancha para meus olhos, como se perguntassem como foi que aquilo surgiu. Muito bem, eu não faço a mais remota ideia. Ou melhor, faço: as manchas me perseguem. Quando me veem passando na calçada, elas saltam das janelas, pulam dos galhos, se jogam dos telhados, só sossegando quando estiverem bem acomodadas na minha camisa.

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A Terra é cinza

em Cássio Zanatta/News & Trends por

– A Terra é verde!

Revelou ao mundo Yuri Gagarin, há quase 50 anos. Foi um espanto no centro espacial russo, que a gente não lembra o nome porque o que ficou para a história foi o da NASA, em virtude do colapso da União Soviética. O tempo todo, notícias chegavam por ETs, incas venusianos e astronautas de outros mundos que garantiam que nosso planeta era azul.

Mas o homem disse do espaço, ao vivo e em cores, pausadamente e coberto de certezas: verde. Quando chegaram as primeiras imagens vindas do espaço, foi a confusão universal: o planeta aparecia azulzinho da silva, como o céu, alguns mares de areias brancas e a bandeira da Portela. Um cientista fora convocado para interrogar a mãe do astronauta:

– Madame Gagarin, seu filho faz confusões com cores?

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Bouchonné

em Cássio Zanatta/News & Trends por

– Não está bom.

E devolveu com uma careta a taça sob a mesa. O garçom, atônito, congelado com a garrafa na mão:

– C-como?

Sem se alterar, o homem diz:

– Está alterado. Bouchonné.

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O cronista alienado

em Cássio Zanatta/News & Trends por

– Ah, tenha dó: é atentado a bomba no metrô de Madrid, sequestro de avião em Moscou, tiroteio em hospital no centro de Bagdá… Nem precisa ir tão longe: aqui mesmo, um garoto entrou na sua escola e matou oito colegas. A tiros de espingarda, golpes de martelo e facadas. Enquanto ria. Me diga: como é que em meio a isso alguém pode escrever sobre ondas, conchas e ventos?

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O menino, o velho e o mar

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Para Zilda Maria da Silva (Dona Nega)

André contou sua história de menino. Teve quem chorou, teve quem duvidou.

André é de Recife. “Do Recife”, como ele diz. Cresceu nas areias da Praia do Janga, de manhã a correr descalço, catando concha, tomando vento, mergulhando nas ondas verdes e bravas; de noite, a aprender com os adultos as danças nas rodas de coco nas noites de lua.

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Aqui se faz

em Cássio Zanatta/News & Trends por

O preço a pagar pelas coisas anda alto demais. Dizem os entendidos que é a inflação. Mas nossa carência também sofre de carestia?

Alguns dias de férias custam 11 meses de sangue. O coração pode ter que pagar pelo excesso de sustos, cigarro e torresmo. O preço de se apaixonar pode ser um desasossego sem fim. A vergonha onerou o desatino.

Tenho a impressão de estar pagando excesso de culpa, não era para tanto. Caro demais pelos pecados, mereço um desconto por certa gagazice. Mas quando já acho muito, vem alguém e ainda remarca na calada da noite.

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Badalando

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Cinco horas da madrugada, dizem as badaladas do sino da Matriz. Então acontece do cidadão abrir o olho, tão somente um, e se perguntar: espera aí, bateu cinco ou seis horas? O vento levou o som de um ou outro toque e dificultou o entendimento. Ainda está escuro. Mas como é inverno, seis da manhã costuma ainda ser noite. E agora? Continuar sonhando ou pegar o caminho da roça? Voltar a me enfiar nas cobertas ou lavar o rosto com a água gelada de doer que sai da torneira nessa época?

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Onde mora o sabiá

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Cinco da manhã, o dia nem nasceu e um sabiá desandou a cantar nas redondezas.

Pronto. Cronista deve ter fixação por sabiá. Vira e mexe, catapimba: lá vem o bicho na história. Por que sabiá e não tico-tico? Ou gambá, muriçoca? Discriminação pura. Fora que vira tudo pastiche do velho Braga. É muito descaramento. Mas o que eu vou fazer se na verdade um sabiá desandou a cantar, ué?

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Vai fazer frio

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Estão prevendo muito frio para o fim de semana. Mínima de 6 graus, chuva, ventos e o escambau. Preciso checar minha provisão de porto, conhaque, meias grossas, livros e se meu cachecol não está com cheiro de mofo.

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Sem banana

em Cássio Zanatta/News & Trends por

– Sua salada de frutas, senhor.

– Obrigado, que mara… mas péra aí: cadê a banana?

– Como, senhor?

– A banana, não tem banana? Estou vendo algumas frutas aqui (aliás, não muitas), mas não estou vendo banana.

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