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Poética Urbana

Poesias para sexta-feira

em News & Trends/Poética Urbana por

“Das virtudes do teu corpo
Do assombro em tê-la pele
Tela que chama descoberta
Em mãos e boca no perder-se
Em horas

Das formas o contorno, da carne
O gosto, a explosão aos lábios
De tudo o que é memória
O mais presente é a tua voz

Ei-la, sussurrar da natureza humana
Vento de fada sem asas – ou roupas-
Canto de sereia, ei-la;
A voz, o chamar de tua boca
Som, do universo
o cio”

Marcelo Adifa

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Nó Borromeu

em Poética Urbana por

NÓ BORROMEU
(Rogério Duran)

– Sim, eu ouvi!
Não sou surdo,
por mais que possa lhe parecer absurdo!
Não sei se entendi;
era mais certo que sim.
Mas vi pouco a dar em seu olhar
e muito a jogar.
Então passei a vez.
Tinha mais o que fazer.
Olhava seus dedos finos no ar
(delicadeza prometida)
apontando detalhes em Almodóvar.
Minha pele estava fria;
eu pensava em carícias…
Rancière, Mallarmé,

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Poemas de Garcia Lorca

em Poética Urbana por

AR DE NOTURNO

Tenho muito medo
das folhas mortas,
medo dos prados
cheios de orvalho.
eu vou dormir;
se não me despertas,
deixarei a teu lado meu coração frio.

O que é isso que soa
bem longe?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu!

Pus em ti colares
com gemas de aurora.
Por que me abandonas
neste caminho?
Se vais muito longe,
meu pássaro chora
e a verde vinha
não dará seu vinho.

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Poesias para sexta-feira

em Coluna/Poética Urbana por

FUNILARIA NO AR (I)

Funilaria
facada que vai ao centro,
súbita falta de língua
no pensamento.

Esta vontade de chover
pássaros onde o céu
é mais escasso, e a mão
não escolhe
é mão para escrever
mão para cumprimentar.

Funilaria: a lei
que manda afixar o olho
dentro da saliva de alguns séculos.

Funilaria de tambores.

Só eu, vacinado,
crismado, lido, treslido,
escondo-me do diabo,
rezo a Deus pelos pobrezinhos.

Há alguns anos tenho fome.
Fome que varou
a vaca, a siderurgia,
as debêntures.

Na calha
de minha loucura
sou o único a ter fome.

Parece que içaram
o verde na procissão
dos automóveis.

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Poesias para sexta-feira

em Coluna por

poetica

Agora o The São Paulo Times conta com uma coluna dedicada à poesias chamada “Poética Urbana”.
Ela será publicada toda sexta-feira. Para colaborar envie sua poesia para [email protected]

Canção de Festa
(Joe Sales)

ébrios… rodopiávamos no salão…
todos pensavam que fôssemos
o casal principal
e não éramos?

de um lado a outro…
de um lado a outro…
nossos corpos desenhavam
o amor das palavras não ditas…

o intervalo entre a alegria e o prazer…
rodopiávamos…
rodopiávamos…

parecia que o mundo pretendia acabar
e se acabasse não teríamos nada a dever
dançamos… bebemos… amamos….

—-

Repare
(Joe Sales)

Repare que em cada parada
há um reparo pra se fazer.

que em cada pensamento
há uma palavra pra se esquecer

que em cada sentimento
há um gesto pra se fazer

Repare, sem pressa, que a vida
tem suas ínfimas levezas

E em cada uma delas o ser
descobre a sua estranheza.

—-

Desafinado
(Joe Sales)

Não há quem entre no mundo
sem errar o tom.

Viver é ensaiar a canção…

—-

**************************************************
(Joe Sales)

adensa em mim líquido uivo
a dor é um ponto
e mais outro e outro
percorre em minhas veias
a cor do nada
fixo-me numa ausência
o vazio de fora é suave
troco de pele
nas verdades ditas
troco de pele
para não acumular
tantas e todas as feridas
troco de pele
a rotina me habita
e me continua em solidões
a porta está fechada
o tempo também
o líquido se espalha
quando a morte vem

—-

**************************************************
(Joe Sales)

te vejo, poeta
criança
descalço
a correr em busca
do fim céu
te vejo,
às vezes
ensimesmado
fitando
o horizonte
perdido
no fundo do mar
te vejo,
poeta
com olhos
fechados
quando
procuro
em mim
a criança
que fui
– menino
que olhava
para pandorga
imaginando ser ela
continuação do céu
te vejo,
poeta
continuação
de minha asa
silêncio maior
fundo do mar
horizonte da alma
te vejo luz,
minha criança.

—-

**************************************************
(Joe Sales)

poeta mora na saudade
vive a suspirar na varanda do silêncio
inventa motivos para cantar tristezas
o poeta sem sair de si visita
a saudade dos outros

Joe Sales, pesquisador bolsista na Universidade Federal de Mato Grosso, natural de Rondonópolis, reside atualmente em Cuiabá. Lançou recentemente o livro Porta Estreita (Penalux).

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Poética Urbana. © 2014.

Poesias para sexta-feira

em Coluna por

poetica

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ANIVERSÁRIO
(Ruy Espinheira Filho)

Metade do tempo consumada
ou ainda mais.
No peito, a mesma fome, a mesma sede
do menino, do rapaz.
O mesmo olhar perplexo
o mesmo
sem resposta
gesto crispado interrogando.

(É dezembro
e noite e abro a janela
e vejo outras janelas iluminadas.
Ali há vida, como na rua, como
no campo e no mar e nos velozes
aparelhos que cortam o espaço
e
talvez
noutros planetas e universos.
Como há incontáveis séculos e
provavelmente
amanhã. Mas tudo rápido
demais
que nem nos podemos saber
e partimos
no mesmo escuro em que chegamos.)

Perdi colegas, namoradas, cães.
Perdi árvores, pássaros, perdi um rio
e eu mesmo nele me banhando.
Isto o que ganhei: essas perdas. Isto
o que ficou: esse tesouro
de ausências.

(A noite avança e as janelas
aos poucos
se apagam. No silêncio
meu coração permanece
iluminado. Eis que trabalha, fiel,
mesmo quando revela
a si mesmo em breve imóvel
ou, depois, a última estrela
sem testemunhas
no céu final.)

—-

CANÇÃO MATINAL
(Ruy Espinheira Filho)

Acorda bem cedo o homem
da casa de telha-vã
e abre janela e porta
como se abrisse a manhã.

E eis que a vida não é mais
nem triste, nem só, nem vã.
É doce: cheira a goiaba
e brilha como romã

orvalhada. E ele caminha,
o homem, com passos de lã
para em nada perturbar
a quietude da manhã.

Já não há mágoas de perdas
nem angústias de amanhã,
pois a alma que há na calma
entre a goiaba e a romã

é a própria alma do homem
da casa de telha-vã,
que declara a noite morta
e acende em si a manhã.

—-

CAMPO DE EROS
(Ruy Espinheira Filho)

Amor: esta palavra acende uma
lua no peito, e tudo mais se esfuma.

E testemunho: eis que Amor deixou
ferida cada coisa que tocou.

E tudo dele fala: a mesa, a cama
(como abrasa este hálito de chama!),

o bar, cadeiras, livros e paredes
vivem, revivem: de fomes e sedes

a corpos saciados. Tudo fala,
tudo conta. Só a boca é que se cala.

Amor. Do extinto pássaro, o vôo
prossegue, inexorável. Mas perdôo,

eu, essa lâmina que me escalavra,
revolve em mim, em sua funda lavra,

amor, restos de amor, gestos quebrados,
enganos, mais amor, olhos magoados,

e fúria, e canto, e riso, e dança, e dor.
E a Quimera. E amor, amor, amor

por toda parte trucidado e em flor.

—-

CANÇÃO DE DEPOIS DE TANTO
(Ruy Espinheira Filho)

Vamos beber qualquer coisa,
que a vida está um deserto
e o coração só me pulsa
sombras do Ido e do Incerto.

Vamos beber qualquer coisa,
que a lua avança no mar
e há salobros fantasmas
que não quero visitar.

Vamos beber qualquer coisa
amarga, rascante, rude,
brindando sobre o já frio
cadáver da juventude.

Vamos beber qualquer coisa.
O que for. Vamos beber.
Mesmo porque não há mais
o que se possa fazer.

—-

BLIND BORGES
(Ruy Espinheira Filho)

A vasta e vaga morte, esse outro sonho,
não é só outro sonho: é a mais remota
ilha de ouro a que nossa derrota
nos leva, inexorável, sonho a sonho.

Latidos pelos cães, sonho após sonho,
sonhamos. Esta é a vida, a vela, a rota
do homem: sonhar. E em áurea praia ignota
sonha o que sonha o sonhador, que é sonho.

Isto é o que pulsa em nós: o ansiado ouro
— distante e aqui, no coração —, tesouro
cuja procura tece a nossa sorte;

rumo que a alma singra e sagra em ouro
até chegar enfim a esse tesouro
incorruptível que nos sonha a morte.

—-

SONETO DA TRISTE FERA
(Ruy Espinheira Filho)

Quanto mais o olhar acera,
recrudesce a noite vasta,
restando apenas à fera
as trevas em que se engasta.

Choramos, era após era,
esta carência que pasta
entre escombros de quimera
tudo aquilo que não basta

a nós, esta triste fera
que vê só o duro luzir
desta, mais fera que a fera,

condição que a vergasta:
corpo — o que nos vai trair;
e alma — o que nos devasta!

Ruy Espinheira Filho, poeta, jornalista, mestre em ciências sociais e doutor em letras é professor da Universidade Federal da Bahia. Autor de uma produção densa e diversa.

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Poética Urbana. © 2014.

Poesias para sexta-feira

em Coluna por

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Coração em peixe
(Marcelo Leandro Ribeiro)

O peixe
quando acorda
olha ao lado,
fino retrato
de seu mundo à parte
numa cabine
chamada aquário

Pra quem nasceu entre mares
quatro esquinas lhe fazem as
honras, é de vidro sua morada
com falsas pedras e bolhas

Até mesmo a namorada,
Uma sereia, é mais falsa que
o pinguim estacionado
por dois anos em cima da frígida
geladeira,

pinguim e a sereia
de cerâmica não se mexem,
mas os ama
pois é o que pode observar,
quando derrama
os olhos
para fora do seu habitáculo

E seu coração em peixe se proclama
único morador do seu mirrado lar

—-

Como que onda
(Marcelo Leandro Ribeiro)

como que onda
que nada teme,
apenas surpreende
tu me olhas,
como maré, entre areia
e tua força, me faz mais teu
que a água nua
em que meu sorriso
desintegrado flutua

—-

Pedra empecilho
(Marcelo Leandro Ribeiro)

Assume-se a pedra empecilho
quer-se a frente de quem, por caminho
deseje passar, assume-se a pedra delírio
se curando do amor o fascínio
que nas ondas se faz arrebentar

Pedra que por cima
das águas me atiro
repousando no fundo do mar
e feito pérola me abrigo
antes numa ostra,
mais tarde em teu colar

—-

Nuvem que absorve
(Marcelo Leandro Ribeiro)

Pousou os seios sobre o parapeito
respirou e desmanchou-se ilesa
entre a nuvem que a absorve e o
Sol que a deseja nua como vento

—-

Luz que te deseja
(Marcelo Leandro Ribeiro)

Mergulho em teu olhar como estrela
quando nasce ao universo, mergulho
e sou parte da luz que te deseja

—-

Terra em fogo
(Marcelo Leandro Ribeiro)

A terra no centro é lava
quente como nada que
se conheça,
magma rubro
rocha
derretida que se espalha

A terra no centro acaba
em fogo
como coração apaixonado

Marcelo Leandro Ribeiro, especialista em engenharia de segurança e biossegurança. Escreveu mais de vinte livros sobre assuntos ligados à sua área de conhecimento, além de livros de poesias, infantis e romances.

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Poética Urbana. © 2014.

Poesias para sexta-feira

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Pedreira
(Eliana Pichinine)

Lapidei
pedras
de
dúvidas
até
esculpir
asas

—-

Engano meu
(Eliana Pichinine)

o engano
é meu
ninguém
tasca

é capa
de chuva
em dia
ensolarado

é cama
dormindo
e a insônia
de pé

é sorriso
num
dia
enferrujado

é amor
imaturo
camuflado

é lágrima
na face
pela secura
dos olhos

é esperança
teimando
por um
regador

é brincadeira
que
virou
verdade

—-

Somos
(Eliana Pichinine)

somos
juntos
e
partidos
no
alvorecer
e
no
ocaso
de
nós
dois

—-

Perguntando
(Eliana Pichinine)

que temos
para a vida?

prato feito
ou
self-service?

—-

Bosque
(Eliana Pichinine)

Vou passear

pelos versos

enquanto

o sono

não vem

—-

Dia derramado
(Eliana Pichinine)

Não quero

mais chorar

pelo dia

d e r r a m a d o

Eliana Pichinine: Poeta carioca. Fez Graduação e Mestrado em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Seu blog: www.versoseanversofotogenicos.blogspot.com.br

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Elegia
(Iacyr Anderson Freitas)

o inverno quer ficar contigo
neste jardim,
onde um velho dorme.
ainda não são seis horas
e a nuvem
que outrora te acusava
some no azul, desfeita
por teu brilho
que envelhece,
é certo,
sem o alarde
dos ventos mesmos
de outrora.

o que procura estar contigo
não te envolve:
espera, agudo, neste jardim
inaugural
entre formigas,
jornais
e o que resta de setembro.

vives uma infância transitória
e teus cabelos cingem,
na cintura, o esboço
de um adeus
que a tua própria ausência configura.

—-

João Cabral e os Rios
(Iacyr Anderson Freitas)

Soubeste que um leito seco de rio
de todo nunca se encontrava vazio,

que há nesse leito a nudez, tu disseste,
que se aumenta quando o verão a veste,

que um rio só esta vazio quando
de seu próprio sonho ele for secando,

que um rio será sempre grande em nós,
quando o soubermos sem nascente ou foz.

Só tu compreendeste, amigo, que um rio,
embora seco, nunca está vazio.

—-

Levinda, Escrevente Municipal
(Iacyr Anderson Freitas)

Algo me diz
que essa tarde de agora
já passou por mim
com sua fauna, sua flora,

que esse desamparo,
essa tristeza sem fundo
é apenas o eco
de um passado no mundo.

Algo me diz
que deverei repeti-lo
indefinidamente
sem termo e sem asilo.

Repeti-lo assim
sem qualquer sentido,
feito essa tarde que agora
acende o meu vestido

com sua fauna, sua flora.

—-

Narciso
(Iacyr Anderson Freitas)

nada existe
quando de mim
o sol se ausenta

procuro-me assim
embora haja treva
ou tormenta

o corpo que me leva
me alimenta

—-

Noutras águas
(Iacyr Anderson Freitas)

Uma erva miúda
toma de assalto nossa fala.

Quebra essa página ao meio.
Fende a imensidão que a convocara.

Brilha além de nós,
noutras águas, e nos desampara.

—-

Os vidros em classe
(Iacyr Anderson Freitas)

de onde estamos
ouvimos doer a primavera

um fio grosso de limo
costura o meio-dia à meia-noite

costura sumidouros e cruzes
no céu da boca

um silêncio muito antigo
coloca a cabeça em nosso umbigo

não é preciso que se acenda a luz
para que o vejamos

brilha com nossos avós
nos retratos

um silêncio velho conhecido

tentamos inutilmente
deixar em conserva
as mais belas manhãs

sem os nomes de batismo
os frascos
escureceram de frio

vamos estudar o assunto
abrimos os vidros em classe

algo deu errado reconhecemos

ao fundo
um novo desdém nos condimenta
de nuvens

Iacyr Anderson Freitas, engenheiro civil formado pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Mestre em teoria da literatura. É dos poetas mais qualificados e influentes da sua geração.

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A visita
(Líria Porto)

só tive olhos pro amor
e sua pele era pálida
e sua chama era tênue

só tive olhos pro amor
e ele se foi para sempre

não vi o céu
nem o sol

—-

Precisão
(Líria Porto)

saio à procura de tudo
um livro uma pedra
uma saia
qualquer coisa serve
num dia frio

até uma palha

—-

Árvore do cerrado
(Líria Porto)

araguari – ventania – nasci já faz tempo
o vento ainda e hoje me segue
conversa comigo espalha meus medos
alerta os perigos espanta meus versos

lá tudo é tão plano a gente se aterra
e quando mudamos o vento se apega
agarra-se à alma impregna-se à pele
até de repente levar-nos à febre

então retornamos
e ali nos enterram

(para Lêda Arantes)

—-

Degelo
(Líria Porto)

eu já era uma mocinha
fazia xixi na cama

o tal cheiro d’amoníaco
me matava de vergonha

mas fechar a torneirinha
na melhor hora do sonho

como?

(eu tinha vontade líquida
e alma muito tristonha)

—-

Fadiga
(Líria Porto)

amanhã
vou passar a manhã em manhattan
vou levar sais de banho
um casaco castanho
vou sonhar que eu sou magnata

amanhã
vou ganhar tanto estanho
barganhar um rebanho
bamburrar

amanhã
hoje não

—-

Agora
(Líria Porto)

aqui em casa faz frio
e debaixo da marquise
debaixo do viaduto
só de pensar
arrepio-me

então os dois cobertores
aqueles que eu nem uso
que guardo para as visitas
mando-os a quem precisa
que viver não é depois
e nem ausências
têm corpo

Líria Porto, poetisa mineira. É tida como uma das vozes mais lúcidas da poesia brasileira contemporânea. Acaba de lançar o livro Garimpo, pela editora Lê, com ilustrações da premiada artista Silvana de Menezes.

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Despertador
(Marialda Almeida)

o coração disparou
na hora que ele entrou
como um despertador
que na melhor hora do sonho
grita: como você demorou

—-

Protesto
(Marialda Almeida)

O coração saiu do peito
para comunicar uma greve,
reivindicar seus direitos.
Porque tá batendo demais,
porque dá muita falta de ar,
toda essa escassez,
toda essa ausência
de você
que às vezes,
quando chega
dá um susto
de enfartar
de quase matar.
É nessa hora
que eu espero
o protesto
por nossos direitos
de amar:
esse combustível
que nos oferece um novo ar
pra fazer nosso coração bater
na medida certa,
no mesmo compasso,
na medida da felicidade.

—-

Sonho
(Marialda Almeida)

Cansei de sonhar para te encontrar
Mas enquanto não te encontro
Vou ali, dar uma cochiladinha

—-

Moinho em sentido anti-horário
(Marialda Almeida)

A rua me atravessou
o mercado me comprou
a música me encantou
O poste me escureceu
o restaurante me comeu
o silêncio me ensurdeceu
a vida me enlouqueceu
E quem mora aqui
não sou mais eu

—-

Perder a tristeza
(Marialda Almeida)

Tranquei a tristeza no calabouço
E não deixei que ela saísse de lá
Sem que houvesse motivo
Sem que houvesse embasamento
Na leitura atual de minha vida
Porque em momentos normais
Perco para a tristeza
Porque nada muda
Porque o nada é mudo
Porque a mudez remete ao silêncio interior
Mas a ausência de som pode organizar
para completar o que é falta em mim
Para então compreender
Que a alegria também é escolha
E barulho não significa alegria

—-

Sou contrários
(Marialda Almeida)

Vivo assim,
em um deserto molhado,
numa aridez estéril,
demoradamente fugaz,
sou corajosamente medrosa,
uma correta enganadora,
que é constantemente instável,
desprimorosa, mas polida.

Sou um erro corrigido.

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(Nayara Fernandes)

Eu cato
Gota de palavra
Bebo – embriago-me
E molho a garganta
Encharcando-me o peito
Que pulsa – espanca
Trazendo a sobriedade da vida à torna
Que versa ainda doída
Porque dor é sina

– pensador se refaz da cinza.

—-

*****************
(Nayara Fernandes)

ceda
seda pura
ceda ao apuro
do tempo

e dance com o vento
balance o vestido da vida
e se deixe fluir com
delicadeza.

—-

*****************
(Nayara Fernandes)

Rumo a nada eu vou.
Nado em rumo ao voo.
Resumo:
Há felicidade em qualquer volta.
Ainda que torta,
Do teu lado caminha.

—-

*****************
(Nayara Fernandes)

Toda madrugada
será moça sob
carapuça velha da noite:

Poesia sabe pureza
dos seus olhos verso
– luz das estrelas que inspiram as rimas.

Rir o vento cantando
a melodia do silêncio.


Nayara Fernandes
, jovem poetisa, natural de Teresina.  Estudante, publica em “Onde Cantam os Pássaros”. Planeja ser jornalista e publicar seu primeiro livro.

—-

Sexto Sentido
(Flávio Gimenez)

Um dia, fora do espaço e do tempo
caminhei obscuro atrás do mundo
Nesse dia, me perdi nas horas
Não havia faróis que me guiassem

Nesse dia, sem eira nem beira
Nada fazia nem senso e sentido
Eu absorto na paragem
Meus pés caminhavam sozinhos

Hoje revejo na areia mexida
O que poderia ter sido ao vento
Nada que eu sabia acontecera
Nem pouco do que fiz havia sido

Meus pés hoje nao me faltam
Já não trilham tristes caminhos
Penso que já fiz de tudo
Surpreso com meus textos
Sentidos…

—-

*****************
(Flávio Gimenez)

Não fui à Missa, querida
Endominguei. Não andei
De bicicleta. Não fui ao clássico
Nem saí de mim mesmo
Estou assim meio enxuto
Se a bola vier de viés
Eu chuto
Se der na veneta
Dou cabo do medo
e fim.

Flávio Gimenez, médico e poeta, atua em São Paulo.

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Poética Urbana. © 2014.

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