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Tio Cássio apita

Tio Cássio apita Foi o que anunciou minha sobrinha hoje de manhã. Chegou em casa toda saltitante, veio me beijar,…

By Redação , in Coluna , at 27/10/2015

CassioZanata

Tio Cássio apita

Foi o que anunciou minha sobrinha hoje de manhã. Chegou em casa toda saltitante, veio me beijar, me abaixei e sei lá por que raios de interferência ou puro ciúme, quando nos aproximamos, o aparelho no meu ouvido apitou, piiiiiiiii. Ela levou susto e foi correndo contar:

– Mãe, o tio Cássio apita!

O que me levou a uma conclusão simples: eu não uso mais aparelho de ouvido, pronto. Sim, doutora Maria Helena, a senhora ouviu perfeitamente bem: não uso mais aparelho. Desculpe, mas estou decidido.

Chega de vexame. Chega de assustar criancinhas pelas manhãs. Chega de comprar pilhas, de fios embaraçados nas madeixas e de olhares de conhecidos que querem dizer “quem diria, além de esquisito, é surdo.” Chega.

Essa cidade não foi feita para gente que ouve bem. É barulho
demais, ônibus que breca demais, ambulância que grita demais,
britadeira demais. Prefiro aquela surdez que traz tranquilidade ao cristão, mesmo correndo o risco de ser atropelado por um carro que buzinou mas não percebi.

Não, problema nenhum com a qualidade do aparelho, doutora, ele é ótimo. Aliás, bom até demais: faz a pluma que deslizou da nuvem, desceu na brisa e pousou na grama parecer uma bigorna que despencou da laje, quebrou a marquise e se estatelou no asfalto.

Que mal há em deixar de ouvir o que grita o vendedor de loteria? O que eu perco ignorando a melodia do guarda apitando na esquina? É tão importante assim escutar o cochicho da secretária falando do alheio ao telefone? Já foram seis, por que ouvir mais um gol da Alemanha? E por que dar ao clips caído a importância de um edifício demolido?

Pedir para a pessoa repetir o que disse não é um gesto até simpático, que demonstra um real interesse no que o semelhante tem a dizer? E o “hein?”, não é um termo incrível, meio inglês, meio alemão, que denota certa perplexidade diante das coisas, uma constante interrogação frente aos mistérios do Universo?

E para que ouvir tudo direito, se a gente só se decepciona com tanta bobagem dita por aí? Dia desses, o locutor esportivo, querendo informar o tempo de jogo, lascou um “são exatamente nem três minutos.” E o valor que tem assistir à TV Senado sem som? Hein?

Afinal de contas, estar ou não de aparelho em nada interfere na massagem no pé nem no sabor das paçocas ou em cobrir seu filho na cama antes de dormir. Então, vamos tirar o aparelho do ouvido e diminuir o volume do mundo.

Lamento pelas maritacas, realejos e o estrondo das ondas. Não se pode ter tudo. Mas tem o lado bom – por exemplo, a sobrinha vir correndo e beijar a gente, abraçando forte e demorado, sem susto. E um beijo sem apito para você também, doutora Maria Helena.

Viver é bom, ouçam o que eu digo.

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Cássio Zanatta é natural de São José do Rio Pardo, o que explica muita coisa. Escreve crônicas há um bom tempo – convenhamos, já estava na hora de aprender. © 2014.

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