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Tropas ocidentais abandonam Afeganistão e deixam na mão dos traficantes

Depois de 13 anos de guerra, as tropas ocidentais vão se retirar do Afeganistão. Deixam para trás um inimigo invicto,…

By Redação , in Mundo Política , at 14/01/2014 Tags:, ,

Depois de 13 anos de guerra, as tropas ocidentais vão se retirar do Afeganistão. Deixam para trás um inimigo invicto, de um governo instável, corrupto e só nominalmente democrático.

O Ocidente está cortando o verdadeiro custo de guerra para os próximos anos, mas não só pelo dinheiro e sangue derramado, e sim, por causa de uma epidemia de heroína que está varrendo o mundo, impulsionada pela enorme produção de ópio no Afeganistão.

De acordo com um recente relatório das Nações Unidas, a produção de drogas no Afeganistão cresceu 50 por cento. Os lucros do ópio afegão totalizaram 68 milhões de dólares, e menos de 10 por cento permanecem no Afeganistão, disse Jean-Luc Lemahieu, chefe do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC).

Ao mesmo tempo, as taxas de vício em heroína estão subindo nos Estados Unidos. Em dezembro, o procurador-geral de Ohio, Mike DeWine advertiu que “uma epidemia de heroína se aproveitou do estado destruindo a nossa juventude”.

Os países que invadiram o  Afeganistão em 2001 se perguntam: Será que realmente gastamos duas vezes mais tempo e dinheiro para combater a Segunda Guerra Mundial ou, apenas fizemos o Afeganistão ser um pais seguro para os agricultores de papoula transformarem crianças suburbanas em viciados?

Em 2008, no final do segundo mandato do presidente George W. Bush, um enviado especial dos EUA para Cabul, Richard Holbrooke, escreveu: “é essencial quebrar o narco-estado do Afeganistão, ou tudo falhará”. Então, por que uma missão que começou com a intenção de reconstruir a economia destruída pela guerra do Afeganistão e quebrar o tráfico de drogas chega ao fim com a produção de ópio em níveis recordes?

Parte da resposta é que a Força Internacional de Assistência à Segurança (ISAF), liderada pelos EUA no Afeganistão – não consegue fornecer aos agricultores de ópio afegão uma outra alternativa de fonte de renda.

Desde 2001, o governo dos EUA gastaram mais de US$ 6 bilhões para reduzir a produção de ópio, incluindo programas de erradicação de culturas e subsídios para cultivos alternativos. Isso claramente não foi o suficiente: O ópio é cinco a seis vezes mais lucrativo do que outras culturas, de modo que os incentivos – ou penalidades – tem que ser enorme para desencorajar eficazmente o cultivo de papoula. Os agricultores podem ganhar até US$ 203 por quilo de ópio colhido, de acordo com o UNODC. E, apesar de mais de US$ 100 bilhões gastos em serviços sociais no país durante o mesmo período, o Ocidente não conseguiu construir algo semelhante a uma economia afegã real.

“Este ano mais afegãos são dependentes da renda de heroína do que do trigo”, diz Ahmed Rashid, autor do livro best-seller Taliban. “O Ocidente não vai ganhar esta guerra” – disse ele.

O medo do futuro criou um incentivo adicional para os agricultores afegãos aumentarem a produção. “Uma das principais razões para o crescimento do cultivo de papoula no Afeganistão é a incerteza dos agricultores em relação ao país depois de 2014”, disse Angela Me, chefe do departamento de pesquisa e análise de tendências do UNODC.

A situação não é susceptível de melhorar. “Nos anos anteriores, vimos que o ópio é cultivado onde não há controle territorial por parte do governo”. Quanto menos controle do governo, mais ópio” – afirma Angela Me.

Embora o novo exército afegão e da polícia tenha alcançado o número de 350 mil, 80 por cento deles são analfabetos, e a taxa de abandono anual se aproxima de 20 por cento. Antes da invasão não havia nenhum exército ou polícia, somente a milícia Talibã. A força conjunta de treinamento dos EUA-OTAN com menos de 10 mil tropas ocidentais podem ficar, mas vai causar um debate caloroso entre Washington e o presidente afegão, Hamid Karzai.

O Talibã também está lucrando com o comércio de heroína. Agora, os talibãns tornaram-se mais pragmáticos, ficando do lado dos agricultores de ópio, cujas plantações foram destruídas por programas ocidentais de eliminação da droga.

É também um bom negócio: De acordo com o relatório da ONU, o Talibã cobra um imposto de 10 por cento do ópio nas áreas que controlam. No ano passado, a área total direcionada para a eliminação da papoula caiu em um trimestre, enquanto a terra para cultivo de papoula aumentou 36 por cento.

O governo de Cabul não parece interessado em lutar contra a produção de ópio ou  contra o Talibã. Karzai acusou publicamente os Estados Unidos de trabalhar com os talibãs para realizar ataques de bombardeio, e declarou que se uma guerra eclodir entre os EUA e o Paquistão, ele ficaria do lado do Paquistão.

Muitos funcionários afegãos são traficantes de drogas, usando as propinas para o enriquecimento pessoal e para financiar campanhas eleitorais nas próximas eleições nacionais. “A corrupção do governo Karzai é o segredo desagradável que a administração (EUA) prefere não enfrentar”, disse um ex-assessor sênior dos EUA no Afeganistão, que não está autorizado a falar sobre o assunto. “Muitos funcionários estão fazendo um monte de dinheiro em algum lugar”, disse ele.  Segundo os relatórios do The New York Times, até mesmo o irmão de Karzai, Ahmad Wali Karzai, está ligado ao tráfico de drogas.

Enquanto isso, são os países mais próximos ao Afeganistão que estão sofrendo mais com a onda de heroína. “O Afeganistão produz 90 por cento da heroína do mundo, com quase metade da sua produção canalizada através do Paquistão, que acaba indo para a Europa ou Ásia, escondida em contêiner embarcados a partir de Karachi”, relata o UNODC.

O Paquistão tem quase 1 milhão de usuários de heroína, metade usam agulhas. A ONU calcula que quase 30 por cento dos viciados paquistaneses que injetam heroína são HIV positivo – uma das mais altas taxas do mundo, acima dos 11 por cento em 2005.

“O Paquistão é um país de transição, mas também se tornou um consumidor”, diz Cesar Guedes, que dirige o escritório Paquistão da UNODC. “Parte desta droga (colheita)permanece no país, não porque é um mercado lucrativo…mas porque os traficantes pagam em dinheiro e em espécie, criando um mercado local”.

Os russos são os mais viciados em heroína, superando qualquer população do mundo. A partir de 2012, teve 5,5 milhões de viciados em drogas, 60 por cento a mais que uma década atrás, e quase 10 vezes a mais do que nos Estados Unidos, que registrou 669 mil usuários em 2012 , contra 373 mil em 2007.

Cerca de 30 mil russos por ano morrem por causa dos efeitos colaterais da heroína, e, mais de 120 mil são presos por crimes relacionados a droga. Nas cidades de Tula, Yaroslavl, Samara e São Petersburgo, as mortes por heroína e AIDS duplicaram ou mesmo triplicaram ao longo dos últimos dois anos, de acordo com organização não-governamental – país sem drogas. Na maior parte do mundo, a AIDS é sexualmente transmissível – na Rússia 80 por cento adquirem a doença por compartilhamento de agulha.

Nos EUA, o pequeno pacote de heroína em pó, que é aproximadamente um décimo de uma grama, custa US$ 20, de acordo com Chuck Boyer, coordenador da unidade da Força-Tarefa Antidrogas Seneca County – METRICH Enforcement Unit em Ohio.

O preço em Moscou costumava ser baixo, mas cresceu consideravelmente, já que a demanda aumentou. “Na Rússia, as entregas de heroína (do Afeganistão) dão luz a demanda. Os maiores crescimentos de entregas de heroína foram em 1997 e 1998 e em 2003 e 2004 – quando a maioria das pessoas se tornaram viciadas. Em 2004 podia comprar uma dose em qualquer lugar por US$ 5, e hoje o custo vai de US$ 27 a US$ 45”, disse Yury Krupnov, diretor do Instituto de Moscou de Demografia, Migração e Desenvolvimento Regional.

As autoridades russas estão começando a ver a heroína como uma emergência nacional. “A Rússia está pagando um preço bem mais alto do que qualquer outro país”, disse Krupnov. Ivanov, um amigo próximo ao presidente Vladimir Putin, tem um plano agressivo – para equiparar oficialmente o narcotráfico com o terrorismo, com as correspondentes sanções legais.

“A única maneira de resolver verdadeiramente o problema é torná-lo uma prioridade no direito internacional”, disse Ivanov, que viajou para o Afeganistão, Paquistão, China e América Latina para empurrar um plano de erradicação de drogas, conhecido como Rainbow- 2.

“A economia da droga é quase tão grande como o gás ou óleo. Vamos fazer alguma coisa sobre isso. O comércio de drogas é, obviamente, uma ameaça para a vida humana, a saúde, e também a segurança do Estado. Os cuidados devem ser classificados como uma ameaça à segurança global, assim como o terrorismo ou a pirataria”.

Infelizmente para Ivanov, o clima nas Nações Unidas contra as drogas não é tão favorável. Em setembro, o jornal The Observer britânico publicou documentos da ONU que mostraram profundas divisões internacionais sobre a guerra global contra as drogas.

Muitos países tratam o consumo de drogas como um problema de saúde pública. Vários países já abandonaram a proibição, Portugal efetivamente descriminalizou todo o consumo de drogas em 2001, e no mês passado, o Uruguai legalizou a maconha.

O plano de Ivanov é a erradicação da papoula – a colheita agressiva. “Temos que destruir os estoques de cada agricultor, cada laboratório”, diz Ivanov. “Temos que matar o dragão em sua caverna”.

Mas erradicação em larga escala já não é politicamente possível no Afeganistão. Nestes últimos dias de missão da ISAF, há chance zero de que o esforço esteja sendo intensificado. Atuais esforços de erradicação da papoula se tornou tão inútil como “utilizar pás para limpar a neve da Sibéria”, disse Alexei Milovanov, representante da Rússia na erradicação da droga em Cabul.

“Eu não posso ver uma conclusão bem sucedida para os desafios que afetam o Afeganistão, se eles não incluírem o progresso e avanço em termos de drogas ilícitas e abuso de drogas”, disse William Brownfield, Secretário Adjunto de narcóticos internacionais e aplicação da lei do Departamento de Estado. Mas a verdade é que o Ocidente tem pouca influência sobre o regime de Karzai.

O Ocidente realmente está pronto para deixar o Afeganistão como um narco-estado falhado, com políticos ligados a traficantes? Muitos políticos norte-americanos estão indignados com a perspectiva.

“Existe pouco produto do tráfico de drogas no Afeganistão, pois a heroína é efetivamente consumida nos Estados Unidos”, disse a senadora Dianne Feinstein. “A maioria da heroína consumida aqui é originária do México e da Colômbia. Simplificando, o comércio ilícito de drogas do Afeganistão financia atividades terroristas do Talibã. A guerra contra o Talibã está longe de terminar”.

Obama não tem outra escolha a não ser abandonar o Afeganistão para os traficantes. Não existe qualquer coisa que o Ocidente possa fazer em relação a eles, mesmo que quisesse.

As forças da ISAF abandonaram a erradicação e, ao mesmo tempo, diplomatas ocidentais não conseguiram chegar a qualquer tipo de compromisso com o Talibã. “Infelizmente, os EUA é menos potente e eficaz do que muitos pensam”, diz Rubin.

Karzai precisa fazer um acordo com o Talibã para sobreviver, e os talibãs têm adotado o papel de defensor dos agricultores de ópio. Muitos dos principais apoiadores de Karzai, especialmente nas áreas dominadas por Helmand e Kandahar, estão profundamente envolvidos no tráfico de drogas.

Parece que o Ocidente precisa aceitar uma verdade inconveniente: ao mesmo tempo que a heroína causa estragos na vida de jovens, o ópio é a sobrevivência do governo de Karzai.

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