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Friday, July 3, 2020
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Tudo isso é porque você já sabe que não vai dar conta…

Tudo isso é porque você já sabe que não vai dar conta… Se você já sabe que não vai dar…

By Redação , in Coluna , at 23/09/2015

Paulo

Tudo isso é porque você já sabe que não vai dar conta…

Se você já sabe que não vai dar conta de ler um artigo de 3 páginas, fique apenas com o título, onde eu resumi em “meia tuítada” (53 caracteres dos 140 possíveis) a razão para “tudo que está acontecendo na sua vida, no Brasil, no mundo e na sociedade pós-pós-tudo do século 21”.
Se você tem tempo para mais um parágrafo: todo mundo está fazendo o que pode, simplesmente porque não tem mais como escapar da consciência de que “fazer adequadamente tudo que lhe é pedido” não é mais sequer uma remota possibilidade; a agenda não tem linhas suficientes, o dia não tem horas suficientes; a sua vida inteira não será suficiente para digerir a massa de informações disponíveis de todas as fontes e as demandas correspondentes 24x7x365: é exatamente por isso que “isto tudo está assim, desse jeito que está atualmente”; e todo o resto é detalhamento, mas creio que você não tem tempo para isso. Mas, se você acha que vai agüentar o rojão, continue pelo resto do texto, e não diga que não avisei que era longo.
Pegue uma máquina que produz 30 peças em 1 minuto. Comece a forçar a máquina a produzir 40 peças em um minuto. Depois, passe para 50. Ela vai produzir peças defeituosas e o controle de qualidade vai ficar louco, mas continue aumentando para 60, 70, 100 peças por minuto. Um dia a máquina pára, entope, engastalha, falha, e não produz mais nenhuma peça decente até que seja recolhida para a manutenção, reformada, recalculada.
Esse é você. Seu controle de qualidade está ficando louco? A máquina já deu defeito e engastalhou? Já chamou o técnico, que deu uma olhada, coçou a barba e avisou que vai precisar de manutenção brava, daquelas de desmontar a coisa toda?
Aqui temos uma coisa muito interessante: a maquinaria humana é de uma capacidade impressionante, e ela vai rodando, mesmo quando a diretoria lá no andar de cima finge que nada acontece e ignora os avisos. Dê uma passada numa oficina de manutenção provisória e arrume algum tipo de lubrificante químico, qualquer um, legal ou ilegal, e a coisa continua; até o dia em que a máquina parar completamente. Máquinas param; pessoas piram. Piram quando espanam, quando vão embora, quando quebram tudo do lado de fora, ou quando deixam quebrar tudo do lado de dentro.
Isso é o resultado contemporâneo da famosa complexidade crescente. Bem nos avisou Marshall McLuhan, (aquele da aldeia global) que, no futuro (ele escrevia isso nos anos 50/60) a complexidade do cenário atingiria um ponto no qual o discernimento se tornaria um exercício muitíssimo difícil. Atualmente, Zigmunt Bauman chama isso de um cenário “líquido” – ou seja, tudo muito fluído, constantemente mutante; como fluxos líquidos incessantes.
Como discernir ou emitir um veredito que faça sentido sobre qualquer coisa? Afinal, quem viu todos os lados da questão, quando todas as questões tem 437 lados? Quem tem tempo para analisar todos os 437 lados de todas as questões macro importantes do momento?
E se não existe esse tempo, ficam as resenhas, os resumos e as análises, talvez escritas por quem conheceu… quantos lados da questão? Se não existe o tempo para a amplitude de cobertura, cada um vai vivendo, cada vez mais, no extremo recorte de realidade, cada vez mais estreito. Se não há modo de entender as macro-questões de modo aceitável, busca-se conhecer, ao menos com alguma profundidade, o estreito recorte de seus campos específicos.
E temos então um cenário onde especialistas esgrimam recortes profundamente fundamentados, que são desmantelados no primeiro contato com o panorama macroscópico de realidade; seja porque, vistos do alto, tornam-se irrelevantes; seja porque a falta de conexão do recorte torna toda conclusão, por mais brilhante que seja, completamente inútil enquanto geradora de um processo transformador.
Na falta de um processo transformador; na falta de um modo viável de tratar o conjunto de demandas de uma forma minimamente integrada; resta a profundidade no recorte; que vai aprofundando diferenças, porque se cada um olha apenas para o seu recorte, como vai interagir com o recorte do outro? Não encaixa; não combina, não dá liga. E assim, radicalismos e fundamentalismos cada vez mais estridentes e violentos vão tomando espaço por todo lado, até onde menos se espera. De repente, todos os recortes são fundamentalmente certos, e se o outro não entende é apenas porque é um desinformado, que hoje é praticamente um modo eufemístico de chamar o outro de idiota.
Por outro lado, o oposto começa a acontecer pela via de um holismo, da criação de um “Consenso de Superfície”. Como poderia ser diferente? É o superficial factível. Encontram-se conexões e semelhanças desde que se permaneça nas linhas de cima, sem detalhes. Isso gera algumas conclusões mornas e algumas iniciativas de efetividade bastante questionável; que recebem como corolário a sentença: “é o que tem para hoje”. Generalismos, superficialismos inofenivos e inconseqüentes. Se não pode fazer diferença, ao menos seja fofo. Se não pode ser relevante, seja ao menos simpático.
O aprofundamento, a conseqüência, o impacto, a força de opinião, só começará a renascer quando o pensamento puder voltar a acontecer de modo real, com um mínimo de análise dos recortes principais para produzir uma síntese que possa ser qualificada como visão embasada. Isso requer tempo; no nível do indivíduo; e requer tempo no nível da sociedade; para que o tempo do indivíduo possa voltar a acontecer.
Se você faz parte da meia dúzia que chegou no final de um artigo de diversas páginas, isso prova que existe uma luz no fim do túnel, mesmo que seja distante. Se há algo que você, que chegou até aqui, pode realmente fazer a esta altura do campeonato, talvez seja dizer com todas as letras, para o mundo, os colegas, os amigos; o tempo todo:
“- Olha, não vai dar pra fazer tudo mesmo, então que tal se a gente se dedicar a fazer direito ao menos as prioridades essenciais; aquilo que efetivamente pode ser feito?”
Quando perguntarem “mas e o resto da lista toda?”
Você respira fundo e responde, de preferência sorrindo: “É o que tem para hoje”.

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Paulo Roberto Ramos Ferreira é Coach e Terapeuta Transpessoal; Membro da ONG Terapeutas Sem Fronteiras e Conselheiro do Nikola Tesla Institute e autor do livro O Mensageiro – O Despertar para um Novo Mundo. © 2015.

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