Tudo o que aconteceu

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Então direi a vocês o que vou fazer. Vou me sentar neste banco de uma rua em São Paulo, às 16 horas e 11 minutos de uma quarta-feira, 7 de março de 2018, bloquinho em punho. Pela próxima meia hora, vou anotar tudo o que acontecer em volta. Sem inventar lhufas. Se não houver nada, se for de uma sem-gracice sem fim, a culpa não é minha, apenas vou registrar os fatos. Começando agora.

Ventinho chocho. Mal chega a chacoalhar as folhas das árvores.

Um casal entra numa loja. Após alguns minutos, o homem aparece na porta, espiando o movimento. Decerto a mulher está indecisa sobre o que comprar e ele se aborreceu. Sabe que terá pouca utilidade, talvez apenas dar sua opinião sobre se ela deve levar o amarelo ou o verdinho, que vai ficar lindo com a sandália nova.

Uma nuvem encobre o sol, coisa que acontece a todo instante, mas é minha obrigação relatar. Não parece ser nuvem de chuva, mas nunca se sabe o que pode surgir detrás daquele prédio. O vento parou de vez e agora a tarde virou uma imensa fotografia.

Um moço passa com seu cachorro na coleira. O cachorro para para marcar seu território na árvore de folhas paradas. E se o texto já não estava lá essas coisas, esse dois “para” em seguida não ajudam em nada.

Uma mulher espia uma vitrine do outro lado da calçada e parece desaprovar tudo o que vê. Ou acha tudo feio, ou tudo caro, ou que deve largar seu marido chato e ir morar em Ulam Bator.

Um papel que alguém jogou no chão esvoaça pela calçada, levado pelo vento que ora decide que ele deve ir pra lá, ora pra cá. Pousa, anda mais alguns centímetros, pausa de novo, lentamente. Como uma tartaruga da espessura de uma hóstia, como se aquela van ali parada tivesse passado em cima da bichinha.

Um cisco no olho. Por alguns segundos, interrompo o testemunho.

Duas buzinadas. E foi só: nenhuma outra buzina lhe foi solidária.

Um casal passa com seu carrinho de bebê. O marido o empurra. O bebê dorme. O homem desvia com cuidado dos buracos da calçada. O bebê dorme. Nenhum grito, nenhum alarme, nenhum acontecimento, o bebê dorme. Um mendigo também dorme, mas deitado num canto da calçada.

Ouço um espirro, mas não posso relatar se foi a senhora ali ou o segurança do prédio. Estava distraído com um carro fazendo baliza quase na esquina. Houve 3 tentativas, embora a vaga fosse generosa (não senti muita integração homem-máquina). Quando saiu, o motorista olhou em volta, na esperança de que ninguém tivesse reparado. Mas arrá: eu reparei, e sinto muito se eu entrego a navalhice do sujeito, mas estou aqui para cumprir com minha palavra e não sou homem de desonrar compromissos.

Um carro parou para uma pessoa atravessar na faixa. Ainda há esperança. Mas claro que um que vinha atrás reclamou, gesticulando muito, achando aquilo um absurdo. Esperança não é realidade.

Uma pomba atravessava a rua civilizadamente quando um carro a obrigou a voar. Percebam quantas menções a carros, como estão presentes e talvez sejam o que mais acontece nesta cidade.

30 minutos. Muito bem. Foi isso. Guardo os últimos segundos para me despedir e agradecer a impressionante paciência do leitor. Eu me levanto e só então vejo que o banco estava molhado.

 

 

 

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