Você me traiu

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Como pôde? Diga, como pôde fazer isso comigo? Vinte e um anos juntos, no maior respeito, e agora essa decepção, essa raiva que me roubou o chão, a revolta de não poder voltar atrás e apagar tudo o que fomos. Traidor. Cretino. Canalha, a palavra mais levinha que me ocorre.

 

A gota d’água não foi carta anônima, flagrante de mensagens no celular, nada disso. Na verdade, o mundo não desmoronou num segundo, veio ruindo aos poucos, uma trinca ali, um abalo mais adiante, alguns pedaços nem percebi, cega de tudo, ou fiz vista grossa.
Primeiro, você ficou careca. Como pôde? Aquela cabeleira toda, mexendo com o vento, balançando no futebol, tudo enganação. Uma isca que eu mordi, boba de tudo. Agora esse buraco no alto, uma clareira que faz lembrar a devastação amazônica, look de monge franciscano. Monge sem fé nem piedade. Sempre assim: você resolve as coisas e nem me consulta.
E aquela magreza toda, o pescoço enxuto, os músculos do braço que eu tanto gostava que me apertassem, onde? De impressionar, hoje, só a barriga que nos afasta cada vez mais na dança, no abraço, no amor. Um muro que cresce para a frente, uma proibição concreta. Quantos quilos a mais? Quinze? Vinte? E por que não me contou que seria assim, que era esse o plano desde o início? Eu devia ter desconfiado da sua paixão, quase obsessão, por goiabada. De quando você ficou com 2/3 da barra de chocolate.
E todas as vezes que me ignorou, olhos fixos num copo de cerveja, na prosa com amigos. Amigos. Humpf. Comparsas, isso sim. Capangas a serviço do seu plano maligno, tudo bem traçado entre um salame e uma batucada na mesa do boteco que ficava debaixo da foto do Papa. Só eu não quis ver.
Que tolinha, meu Deus. Lembro até a vez a noite em que você estava em casa, vendo futebol e, quando cheguei, você trocou de canal para eu assistir ao Vale a Pena Ver de Novo. E ainda foi buscar para mim um copo de Fanta uva. Todo fofo. Todo compreensivo. Tudo fingimento.
Você me trocou. Trocou meu sono bom por uma sinfonia de roncos e apneias. Me deixou o menor pedaço da cama. Os vasos de flores por uma coleção de revistas Placar. Nem meu nome diz mais: é só um “benhê” cafona, vai ver esqueceu qual é. O nome que você jurou para o padre.
Aí você me vota nele. Nele! Ah, não, aí foi demais. Depois de anos daquela conversinha de defender a liberdade, lutar pelos direitos, que bastava vontade política, agora vira reaça de discutir com a moça do Greenpeace na entrada do metrô. Deu.
Vou passar o domingo fora de casa. Talvez resolva visitar meus pais. Sim, eles ainda estão vivos, caso você não se lembre. Aproveite para vir buscar suas coisas. Está tudo no armário como você deixou, a zona que você deixou. Leve tudo. Tudo. Inclusive a camisa do Botafogo. Principalmente a camisa do Botafogo.

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