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The End

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CassioZanata

The End

Ligo a ducha, entro no box do chuveiro e me deparo com a novidade: um frasco de shampoo para cabelos grisalhos.
Minha mulher arranjou para mim um shampoo para cabelos grisalhos. Atenção. Shampoo. Para mim. Cabelos grisalhos.
Sobe a trilha de terror. Desculpe o início com clima afetado de trailer, é que o estupor é grande.
Façam subir os créditos finais. Acendam as luzes da seção. Recolham as pipocas espalhadas pelo chão da sala.

Como continuar esse texto? Como seguir em frente, tendo à frente um shampoo para cabelos grisalhos?
Lembro de minha afilhada – e olha que isso já não foi exatamente ontem. Eu dirigia o carro e, quando olhei pelo retrovisor, ela me encarava com uma expressão estranha. Depois de matutar um tanto, perguntou:
– Padrinho, seu cabelo é cinza?
– É, Laura. É meio cinza, sim.
Mas a coisa não acabou aí. Íamos para uma ceia de Natal na casa de amigos. Eis que chega a hora da Laura dar a dica de quem era o seu amigo secreto e ela lasca:
– Meu amigo secreto tem cabelo cinza!
Na mesma hora, todos apontaram para mim, sem um segundo de dúvida:
– É o Cássio! Só pode ser! Essa foi bico.
Deus acha muita graça nessas cenas. Dobra-se de rir, o fanfarrão, a ponto de quase cair das nuvens, amparado por querubins e serafins.
Vejamos pelo lado positivo: graças ao shampoo para cabelos grisalhos, os meus ficarão cada vez mais grisalhos – prata, sendo mais hollywoodiano e tingindo com um pouco de glamour a realidade.

Rewind até minha saída do banho. Minha mulher viu minha cara apatetada e foi logo explicando: é para o seu cabelo não ficar amarelado, bege ou cor de mocidade quando foge. Teria Silvio Santos sentido o mesmo desalento ao decidir pintar os cabelos de acaju?

Houve um tempo em que eu deitava a cabeça no cólo de Beatriz e ela ficava caçando os cabelos brancos no meio da massa escura. Quando achava um, unzinho que fosse, ela arrancava com raiva e praguejava contra o pobre.
Doía um pouco, mas aprendi no cinema que não se deve contrariar as mulheres nessas horas.
Sinto dizer, querida, mas os letreiros mudaram, o nome do filme agora é: “Cinza é o novo preto”. E não é faroeste.
Aqui, os apaches se multiplicam, irrompem aos montes de trás das moitas e nos tocaiam sem dó nem defesa, os malditos. Sobe o som das flechas voando.

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Vamos fazer o seguinte. Vamos voltar o filme e deixar minha cabeça deitada no seu cólo. É uma boa cena.
Não há canastrice nas atuações, tudo é simples e bom.
Procure agora pelos cabelos pretos, que tal? Não é uma doce ideia?
Viu? Não é tão difícil encarar a realidade. Difícil mesmo é entender por que tiraram o acento da palavra “ideia”.

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Cássio Zanatta é natural de São José do Rio Pardo, o que explica muita coisa. Escreve crônicas há um bom tempo – convenhamos, já estava na hora de aprender. © 2014.

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