Twin Peaks: aquele chiclete que você gosta estará na moda novamente

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Twin Peaks: aquele chiclete que você gosta estará na moda novamente

O público mais jovem, acostumado com Breking Bad ou True Detective, talvez não compreenda qual o impacto que Twin Peaks teve sobre a televisão há quase 25 anos atrás. Porém, certamente, estas séries não existiriam não fosse a ousadia de David Lynch e Mark Frost.

Numa época em que programas adultos se restringiam a minisséries dramáticas ou novelas como Dallas, Twin Peaks colocou a televisão e a sociedade de cabeça para baixo questionando as aparências do american way of life e revelando as obscuridades mais subterrâneas da alma americana. A metáfora era evidente na história da pequena cidade que encontra morta a “rainha da escola” e “filha exemplar”. Com a chegada do excêntrico agente Dale Cooper, cada personagem é desvelado e vem à tona cadeias de prostituição e tráficos de drogas, corrupção, adultérios, etc.

Mas Twin Peaks não era apenas isso. Apoiava-se nos métodos excêntricos de Cooper, entre eles, “encontrar pistas” nos seus sonhos; na sedução das protagonistas, femmes fatales dignas dos clássicos filmes de detetive noir; na trilha de Ângelo Badalamenti e, óbvio, no talento de Lynch. Nesta época, o gosto pelo bizarro e a sofisticação com que tratava destes temas, já era conhecido por filmes cultuados como “O Homem Elefante” e “Veludo Azul”. Lynch ainda não havia levado suas concepções oníricas ao extremo como em “Mulholland drive” e “Império dos Sonhos”, mas não era exatamente palatável.

Descobrir quem matou Laura Palmer se tornou uma obsessão americana. E a mitologia em torno da série só ganhou concorrência equivalente, recentemente, com Lost. Até os donuts, objeto do desejo do agente Cooper, tiveram crescimento de consumo no país.

No Brasil, Twin Peaks foi maltratada. Inicialmente, era exibida nas noites de domingo pela Rede Globo. A Folha de São Paulo não resistiu e publicou o primeiro spoiler que me recordo, num jornal impresso, revelando aos seus leitores quem era o assassino. A audiência brasileira não correspondia ao fenômeno norte-americano e os baixos índices levaram à Globo a cortar episódios, diminuindo a série.

Finalmente, após revelar o assassino, produziu um resumão dos últimos episódios e encerrou a exibição.

Talvez tenha sido melhor. A segunda temporada de Twin Peaks, desprovida do mote “quem matou Laura Palmer?”, foi um desastre. Já sem a direção de Lynch, Frost não conseguiu manter o nível da série e o que era elegância e ironia se tornou brega e exagerado. O enredo era mal amarrado e, rapidamente, a série se converteu justamente no seu oposto, uma espécie de novela, só que estrelada por gente estranha. David Lynch ainda voltou nos dois últimos episódios para tentar por a casa em ordem, mas era tarde e a série foi cancelada.

Como sempre misterioso, Lynch anunciou no seu twitter e com um pequeno vídeo no youtube, o retorno da série em 2016, agora na Showtime. Bom sinal, já que a emissora não tem medo em colocar no ar séries que questionem tabus, como Master of Sex ou Weeds. Mas é só o que sabemos. Não se sabe se a série mostrará os mesmos personagens ou se teremos uma nova história no mesmo local.

Além destas questões, Lynch precisará responder a primeira questão deste artigo. É certo que personagens como o Agente Mulder de Arquivo X ou Rust Cohle de True Detective devem sua aceitação à existência anteriorde um Dale Cooper. Mas, justamente, o caminho de ousadia que Twin Peaks criou já está pavimentado e foi mais longe. Lynch poderá transformar a série novamente em um ícone para uma nova geração de espectadores ou soterrar de vez seu legado. Conhecendo sua trajetória, não convêm subestimá-lo. Mas só saberemos em 2016.

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Miguel Stédile é zagueiro, gremista, historiador e dublê de jornalista. © 2014.

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