Uber e o quanto pior melhor

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Uber e o quanto pior melhor

A polêmica entre os taxistas e o aplicativo Uber continua. Não apenas em São Paulo, mas também em Minas Gerais. E sob olhar atento de outras capitais preocupadas com a chegada da disputa entre o serviço dos motoristas particulares por demanda e o tradicional táxi.

Há dezenas de argumentos contra o Uber: de que supostamente não paga os mesmos impostos dos taxistas, de que não sabemos quem são os motoristas (“e se for um marginal no volante?”), que é uma empresa de métodos agressivos de mercado. Sinceramente, estão todos corretos.

Mas o que são os taxis? Normalmente, concessões vendidas a preços de ouro ou concedidas em troca de favores para sujeitos que contratarão outros motoristas para pagarem uma cota diária. Várias cooperativas de táxis são “cooper-gatos”, fajutas para tornar os motoristas “sócios” e com CNPJ para não pagar direito trabalhistas. Taxistas pagam impostos? Mais ou menos. Automóveis para taxis tem descontos na compra e nos impostos. E como já escrito, quanto mesmo dos taxistas são autônomos e proprietários de seus carros? E qual é a diferença entre o motorista de um taxi e um motorista de Uber? Só o empregador. A possibilidade de encontrar “gente de bem” ou “ um marginal no volante” é a mesma.

E sabe o que mais? A Uber não está interessada em você, cidadão-médio comum. E nem você vai pedir um Uber em dia de chuva, porque o trânsito está complicado. A tendência do Uber é uma parcela elitizada do mercado. Não haverá uma frota gigantescas da Uber, como são os táxis hoje.

Mas há outra coisa por trás da polêmica.
Por que será que há demanda de uma parcela do público, que não necessariamente seria o público-alvo número 1 do Uber, preferindo o sistema aos táxis?

Pois bem, o raciocínio das autoridades é que ao invés de reavaliarem o sistema feudal de concessões de veículos, o valor das tarifas de táxi e a incompetência generalizada que marca as administrações municipais no quesito mobilidade urbana, o melhor é deixar como está. Ruim.

Não torço para a Urbe. Mas torço por mudanças. E o Urbe diz que há demanda e espaço para mudanças na mobilidade urbana. A lição dos aplicativos e da economia compartilhada – aonde o Uber não se enquadra, mas pode inspirar – é que se os gestores locais não reverem suas práticas, a população vai buscar outras saídas, formais ou informais, sem o necessariamente o consentimento institucional. Porque se conformar com o que é ruim e que pode piorar, não é natural.

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Miguel Stédile é zagueiro, gremista, historiador e dublê de jornalista. © 2014.

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