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Um café com Noel

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CassioZanata

Um café com Noel

Não me refiro ao Rosa, compositor mestre das bandas de Vila Isabel (ou eu não estaria tomando café, com certeza), e sim ao famoso velhinho de barbas brancas. Aquele, que usa roupa de veludo vermelho e luvas em pleno dezembro – sei não, mas acho que toda essa pressão de presente, rena que voa e coral cantando Jingle Bells mexeu com o seu termostato.

Sentei no café, esperei, nada do homem aparecer. A vida toda foi assim. A gente olhando pela janela, esperando, ele nunca dava as caras. No máximo, a luz do corredor piscava delatando sua chegada, ou o barulho de um sino muito parecido com o da cozinha. Quando a gente chegava na sala à sua procura, lá já estavam os presentes. Só minha filha que jurou ter visto as renas. Inveja, nunca consegui.

Até que chegou. Revelação da maior importância: ele não surge dizendo “Hohoho!”, mas sim “Que trânsito, hein? Dezembro é foda.” Piscou para mim, pediu água de coco gelada, “Ah, essa belezura não tem no Pólo Norte.”.

– Água de coco? Mas você não é uma invenção da Coca-Cola?

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– Não espalha. Mas, na verdade, sou uma criação dos refrigerantes Picolino, da família Cafola, de São José do Rio Pardo. Ou no seu Natal não tinha sempre refrigerantes Picolino? Então.

E acenava para todo mundo, no maior bom humor. Alguns pediam para tirar foto, outros para entregar uma cartinha, a gente nem conseguia prosear direito. Mas eu é que não ia perder a oportunidade. Na primeira deixa, lasquei a pergunta:

– Sabe uma coisa que sempre me encafifou? Como você consegue, num único dia, entregar presentes no mundo todo? Sei que tem toda aquela equipe de anões e coisa e tal mas…

Ele me olhou como se estivesse diante de um perfeito pateta e respondeu com toda a naturalidade:

– Do mesmo jeito que o Batman descia pelo batposte e já chegava lá embaixo de roupa trocada, ué.

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Pediu uma coxinha. Papai Noel gosta de coxinha, vai anotando. Veio então um menino com um papinho de que havia sido bom o ano inteiro e, pela primeira vez, vi o Noel perder a paciência:

– Você não foi bom coisa nenhuma. Foi chato. Grude. Mala. Não vai deixar de ganhar presente por isso, que meu trabalho não é julgar, é alegrar, mas não me venha com esse papinho chato de bondoso que comigo, não, violão (gíria antiga, Noel anda meio desatualizado).

E para mim:

– Vem cá, esse café é bom ? É de máquina? Não entendo isso. Vocês no Brasil tinham um café tão bom, de coador, para que importar essa mania de expresso?
Tomou seu café num gole, limpou a barba com pressa e disse, apontando para longe:

– Nossa! Olha lá! Um esquilo cor de abóbora de topless e cocar tocando maraca!

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Caí no golpe. Virei para trás e, quando me dei conta, ele já havia ido embora. Desapareceu como apareceu – de repente, nem deu tempo de lhe fazer a pergunta mais importante de todas: afinal, por que ele nunca me deu aquela guitarra de brinquedo que eu pedi uns cinco Natais seguidos.
Ho, ho, ho. Sei. Então tá.

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Cássio Zanatta é natural de São José do Rio Pardo, o que explica muita coisa. Escreve crônicas há um bom tempo – convenhamos, já estava na hora de aprender. © 2014.

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