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Coluna - Cássio zanata

Um mundo que não existe mais

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     Tive um tio-avô que fabricava gaiolas. Sim, gaiolas, dessas de prender passarinho. Hoje, é quase inimaginável alguém ganhar a vida com tal ofício: o de cortar e alinhar o arame com alicate, fazer uma portinhola, suportar com tarrafinhos, acrescentar uma mini banheira para o bicho se lavar e beber água, e ainda colocar um balanço onde ele pode pousar e se divertir. Hoje em dia, prender passarinho é condenável, naquele tempo não, quase toda casa tinha uma gaiola. Vejam: estamos falando de uma São José com 20 mil habitantes e uns 100 mil passarinhos.

     Ainda no capítulo pássaro, era raro o moleque que não carregava no bolso um estilingue. Fazia parte do desenvolvimento infantil aprender a escolher a pedra certa, caprichar na pontaria e dar o impulso preciso no elástico para abater um pobre pousado num galho ou no fio na rua. Posso dizer que me safei de carregar o peso na alma de ter matado um deles, não por compaixão ou espírito ecológico, mas por pontaria ruim, mesmo.

     Eu tive um amigo (tive não porque ele morreu, é porque fomos nos afastando até perder o contato) que criava galos de briga. O pai já os criava, ele tomou o gosto e prosseguiu com a criação. Eu já era então gente para achar aquilo uma maldade com os bichos.

     Minha avó era uma santa. A bondade em pessoa, admirada por toda a cidade. Mas não pelas galinhas do quintal, que fugiam dela, apavoradas, pois minha avó matava as bichas sem dó, com toda a inocência, fazendo um talho de faca no pescoço para colher o sangue e fazer molho pardo para o almoço de domingo (e eu, que sempre pensei que molho pardo tinha esse nome por ter sido criado na minha cidade).

     Mais de uma vez, ouvi nas missas de domingo o sermão do padre que esbravejava, proibindo os fiéis de assistir às novelas da Globo – segundo ele, divulgadoras das artimanhas do demônio. Desconfio que o padre no fundo se divertia com o enredo, colhido no confessionário em que as velhinhas se abriam, envergonhadas, incapazes de resistir à tentação.

     Tive medo de fantasma e assombração. Não dos que tentavam nos aterrorizar nos trens fantasma dos parques de diversão, esses eram muito toscos e vagabundos, não punham medo em ninguém. Tinha dos que entravam pelo vão da janela de madrugada, dos que se escondiam atrás das árvores nas andanças noturnas, dos que baixavam no retrato dos antepassados na parede e que nos perseguiam com os olhos quando a gente atravessava a sala de noite. Crianças ainda têm medo de fantasma?

     Andei muito a cavalo. Joguei bola tendo como “bola” uma embalagem plástica usada e murcha de suco. Para brincar de Batman, a gente amarrava uma toalha de banho no pescoço que servia de capa e desenhava no peito, à caneta esferográfica, o símbolo do morcego com o círculo em volta. Peguei muita carona com caminhonetes e fuscas velhos para viajar pelos arredores. Tínhamos uma sociedade secreta, cuja sede ficava no interior de uma pequena caverna que duas pedras formavam no pasto, e onde bolávamos planos para azucrinar as meninas. Fumávamos escondidos no porão de casa, eu e os meninos, atentos à aparição de algum rato, caranguejeira ou tia desconfiada. Já vi nascer atrás do morro luas cheias tão grandes e amarelas que iluminavam tudo em volta e davam medo.

     A primeira Copa que eu assisti ao vivo na TV foi em 1970, os adultos sentados nos sofás da sala e nós, crianças, esparramados no chão ou aboletados na escada. A de 74, vi numa TV preto e branco com tanto fantasma que tinha uns 33 jogadores para cada lado, correndo atrás de 5 bolas. Hoje, me peguei assistindo a uma partida do campeonato espanhol pelo celular. Ao vivo. Ali, naquele telinha. Em tempo real. Com uma imagem perfeita.

     Pois então. Um mundo se foi, acabou. Mas o assombro não desiste.

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