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A visita de Cupido à praça da alimentação

spacess

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    Eu sei que você já está satisfeito, e resta apenas um sushi tristonho, que não inspira uma última investida. Mesmo assim, despeje mais shoyu nessa cumbuquinha. Mais, isso, quase até vazar. Assim. Misture com o wasabi, até ficar meio viscoso e cor de ferrugem.

      Sei que você não vê propósito nisso. Que desperdício, talvez nem coma o último sushi, você pensa. Mas quem pensa aqui sou eu, você só obedece, tá? Não é hora de buscar sentido, apenas me ouça, sei o que estou fazendo. 

      Agora puxe a bandeja um pouquinho para a direita, deixe espaço à esquerda para o livro que você está lendo, mas não devia, devia é estar prestando atenção à comida e ao que acontece em volta. Mas gosto de você assim, distraído, as coisas parecem acontecer mais para você desse jeito.

     Agora repare em quem acaba de se sentar ao seu lado no balcão. Não, você não repara, está entretido com alguma passagem da história, sem perceber a poesia em volta. Molha o sushi no molho sem se concentrar, e no caminho até a boca deixa pingar shoyu na camiseta branca. Uma mancha que só faz crescer, cada vez mais escandalosa, até ficar do tamanho da primeira coisa que uma pessoa veria ao olhar pra você.

     Agora puxe o livro e a bandeja um pouco mais para a direita, para dar mais espaço a ela e, assim, não ficar com a comida exatamente à sua frente, que é para facilitar os acontecimentos. 

     Muito bem. É agora.

     Você pousa o livro no balcão, um canto dele alcança a bandeja e – desastre – vira a cumbuca que, como uma catapulta, lança no ar gotas de shoyu não só nas suas roupas, mas nos seus óculos, suas bochechas, nariz, até no cabelo. Agora você vai começar a entender: alguns pingos vão parar no vestido e na perna da mulher ao lado. Não é um grande estrago, e ela tem pernas bonitas. Seu vestido é bonito. E a mulher é, bem, você entendeu.

     Você pede mais guardanapos para se limpar e oferece a ela, pede também um milhão de desculpas. Ela sorri. Atenção: ela sorri. Da sua falta de jeito, da situação ridícula, da mancha na sua camiseta branca. Vocês conversam, das desculpas e do “não foi nada” passam a outros assuntos, revelam seus nomes, e até perguntas idiotas como “então, você gosta de comida japonesa?” ou “difícil achar lugar para sentar, né?” parecem interessá-la. 

     Minha deixa é essa. Saio do palco no instante em que você começa a limpar com os guardanapos o poema do livro, também respingado de shoyu. Ela quer ler o poema. É um poema bonito, escolhido a dedo para a situação. Entendeu agora por que eu insistia para que você enchesse a cumbuca? Ela sorri um sorriso branco, que destoa da cor de ferrugem que você espalhou em volta. 

     A partir daqui, entrego o controle. Agora é com ela. Não tente nenhuma fala, algum gesto sedutor, fazer-se de astro do cinema, gênio a ser descoberto, nada. Apenas obedeça a ela. Entendido? Mesmo se ficar apenas nisso. E licença, que aqueles dois ali já estão na fila do sorvete.

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