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Falamos muita bobagem

Marcella Izzo

Marcella Izzo

Devemos falar muita bobagem. Demais da conta. Uma emendada na outra. Mesmo quando nos esforçamos para dizer algo relevante, só sai bobagem. Em diferentes graus: uma levemente estúpida, outra, que até disfarça bem, e outra que, primeiro, até parece fazer sentido, mas depois a gente vê que é uma imensa bobagem.

     Falamos nada que preste assim que acordamos e pouco antes de dormir; à mesa, reunidos para o cafezinho; na viagem de carro, passando o pedágio, quilômetros antes e outros tantos depois; mesmo na sala, diante das visitas, insistimos no que não tem lógica, no raciocínio equivocado, em algo risível ou francamente constrangedor.

     Faríamos sucesso se as disséssemos em podcasts ou em programas de rádio. Se postássemos vídeos no Instagram com a bobajada que dizemos, poderíamos nos tornar influencers com milhares (talvez milhões) de seguidores. Estaríamos ricos de não só falar bobagem como também fazer bobagem, como colecionar sapatos, andar com seguranças a tiracolo ou ter quatro TVs, uma em cada canto da casa.

     Dizemos bobagem sobre política (grave: querendo parecer sérios), comentando séries da Netflix, discutindo economia, uma batatada só. Quando comentamos jogos de futebol, então, nossas análises são furadas de fazer inveja às dos zagueiros dos jogos de domingo de manhã no campo do Rio Pardo. Nossas bobagens só não ficam claras quando tossimos, escovamos os dentes ou fazemos gargarejos, impossibilitando que as palavras sejam entendidas. Apenas nesses casos nossas bobagens não são motivo de vergonha para toda a família.

     E se por acaso alguém com o mínimo de sensatez diz “mas isso é uma bobagem”, ficamos muito ofendidos. E, solidários, nos unimos para argumentar, rechaçar a acusação e provar por “a mais b” que não é bem assim. Um “a mais b” que também não passa de deslavada bobagem, enfim.

     Cheguei a essa conclusão porque duas tias minhas escutam mal, muito mal. Não escutam quase nada, para dizer a verdade. Mas, mesmo assim, recusam-se a usar aparelhos de audição. Acham incômodo. Feios de usar em público. Não aceitam a ideia de comprar pilhas ou experimentar modelos mais avançados. Preferem ficar sem ouvir nada, com o olhar distante, alheias, sob o silêncio absoluto, concentradas nas vozes da imaginação ou no som da respiração de dentro. Comentam assuntos sobre os quais ninguém está falando, ou que de fato foi assunto, mas há 20 minutos.

     Preferem tudo isso do que ouvir as nossas bobagens. Ainda mais as nossas bobagens amplificadas.

     No que (acho) fazem muito bem.

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