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Faz tempo que a gente não conversa

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Vem cá, senta aqui do meu lado. Isso. Faz tempo que a gente não conversa. Eu viajei, depois foi você, por aqui essa correria, tanta afobação sem sentido, quem é que para um minuto nessa casa? Quando um chega, o outro sai – assim que chega, sai de novo. Isso é vida ou gangorra?

Não, não acenda a luz. Essa luzinha fraca do abajur está boa, orna mais com uma prosa necessária. Faz assim como eu: tire o sapato, fique só de meia. Estique os pés no sofá, assim. Quer uma massagem? Comigo não ia dar: se alguém começa a mexer nos meus pés, eu desabo no ronco.

Uma vez, uma amiga disse que esta é uma cidade “que afasta os amigos e aproxima os inimigos”. E não é? Vale também para pais e filhos. Fora que os programas e horários de velhos e jovens não batem: velho dorme pouco; jovem acorda às onze no fim de semana, e, quando é dia útil, bem cedo para ir à faculdade (tão sonado que não quer conversa). Velho foge de festa; jovem emenda uma com outra.

Sobre o quê a gente vai falar? Sobre qualquer coisa, que tal? Podemos falar dessa inesperada safra de morangos, que trouxe frutos bitelos, mas com tão pouco sabor, não costumava ser assim. Do seu gostar de beterraba. Ou da nova máquina de lavar, que sabe tocar uma musiquinha lá bem animada. Do novo disco do Caetano, que nunca fica velho. Do preocupante sumiço das abelhas pelo mundo (parece que vítimas dos agrotóxicos). Ou do novo porteiro da madrugada, que (dizem) dorme no serviço, mas não posso confirmar, nessa hora nunca passo pela portaria. Ele parece prestativo e educado, e isso vale muito. Ou então, falar de como o pôr do sol é lento no inverno, reparou como leva mais de hora entre o sol se esconder e virar noite? Das estrelas surgindo aos poucos, lentas, criando coragem. Então estamos na estação certa para conversar devagar.

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Como você está? Gostando da faculdade? Era do jeito que você imaginava? Mais difícil. Imagino. A gente pensa que nada pode ser mais intrincado que a escola e olha aí. Seus colegas não têm nada a ver com você… entendo. Ou não entendo. Acho que é assim mesmo. No meu tempo… não, não vou falar dos meus dias, o tempo de agora não reconheceria o meu.

Eu? Estou bem sim. Me cuidando, bebendo só nos finais de semana – e nas refeições. Tenho lido muito. Minto: tenho relido mais que lido. Os velhos livros companheiros. Acredita que tenho caminhado dez quilômetros por dia? Sério. Gosto é de andar, academia me dá desânimo. Se está chovendo, ando na garagem, vê se pode, pareço um doido zanzando entre os carros. Mas não me importo, vou ouvindo podcasts, música, pensando na vida, é quase tão terapia quanto exercício.

Ah, você tem que ir para o quarto? Tem trabalho para amanhã? Deus meu, nunca vi professor que passa tanto trabalho. Mas fico orgulhoso com seu comprometimento . De vez em quando, sinto seu semblante muito preocupado. Ser responsável é saudável, mas não exagere. Claro que a gente tem que fazer nossa parte, estudar, se dedicar, crescer, mas a vida tece umas tramas caprichosas, não tente controlar ou programar 100% das coisas.

Ih, virou papo de velho. Pode ir, vou voltar para o meu Calvino. Mas, antes, pegar um vinho. Tem um pouco que sobrou do almoço de domingo. Com um naco de meia-cura. E acender a luz, que, para conversar tudo bem, mas já não consigo ler só com essa luzinha do abajur.

A prosa foi rápida, mas boa. Mais cinco minutinhos amanhã?

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