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O varredor de cacos

spacess

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 Duas vezes por semana, varre as folhas e as flores caídas das árvores na calçada. Contra sua vontade: queria deixar por mais tempo, acha bonito. Preferia varrer só os restos, os cacos, a sujeira que a cidade é generosa em produzir. Apoia a vassoura num cotovelo, com o dorso da outra mão enxuga o suor, olha em volta, volta a varrer.

     Não tem pressa. Seu ritmo é o mesmo de ontem, que será o mesmo de amanhã; não muda na sombra, no sol de rachar carcaça, só na pancada de chuva ele para, que não está aqui para amontanhar lama. É funcionário da prefeitura, em geral trabalha em dupla, mas, hoje, varre sozinho.

     Almoça sentado debaixo de uma árvore. Esta, para se divertir, deixa cair uma folha sobre sua marmita. Ele não vê graça alguma e procura outro canto. Mastiga devagar, olhando o mundo ao redor. Já o mundo ao redor parece não notá-lo, como em geral pouco nota as flores nas árvores e as caídas nas calçadas, o que não tem contado muito a favor da humanidade.

     Eu podia pintar um quadro mais favorável, dizer que ele tem um jeito simpático, assobia, cumprimenta as moças, samba apoiado na vassoura, mas ele não faz isso não: apenas varre a calçada, e só quem já varreu uma calçada sabe dar valor. Também podia dizer que o exercício o deixa em forma, forte, preparado, mas em sua magreza o uniforme, sim, é que dança e respira com folga.

     Conta nos dedos quantos “bons dias” recebe por dia, às vezes não movem três dedos. Gosta das acácias, primaveras e resedás; já em relação às quaresmeiras e africanas não tem simpatia, fazem muita sujeira, dão trabalho em demasia. Em compensação, dão as melhores sombras para as pausas.

     Assim segue o homem, a recolher nossos cacos. Coisas jogadas fora, que em algum momento foram importantes à vida – sacos plásticos, um vidro vazio de perfume, uma meia rasgada, cascas de frutas, um caderno de folhas gastas, uma flor que já fez alguém parar e olhar pra cima – mas virou passado. Às vezes, junta ao lixo o toco do cigarro que acabou de fumar.

      De uma certa maneira, também o cronista é um varredor de cacos. Procura nos cantos os acontecimentos desimportantes, que poucos percebem, varre algumas frases pra lá, outras pra cá, junta alguns montinhos de palavras nos parágrafos, tentando resgatar as que um dia foram úteis a um trabalho, a uma discussão, uma declaração. No entanto, a maioria delas de nada serve e acaba no lixo. Não, não: não somos iguais, o trabalho do varredor ao menos é necessário, sem ele haveria mau cheiro, caos e desordem. 

     A tudo sua vassoura arrasta, empilha, até deixar o mundo limpo, pronto, à espera do escarro do bêbado que não toma banho e que por ali faz ponto, xingando as pessoas, se alimentando de sobras e cuspindo no chão.

     Nem tudo nas crônicas são flores. E, mesmo essas, às vezes acabam varridas.

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