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Devo desculpas a tia Paulina

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Há alguns anos, ganhei de presente de tia Paulina uma preciosidade: a Coleção dos Prêmios Nobel de Literatura, editada pela própria Academia Sueca. Sessenta livros com obras dos agraciados de 1901 até 1969 (em alguns anos não houve premiação por causa das duas Grandes Guerras), em capa dura branca com uma linda gravura em relevo de Picasso e traduções de feras como Bandeira, Drummond, Graciliano, Monteiro Lobato, Rachel de Queiroz e Paulo Mendes Campos. 

     Seu marido, meu tio Renato, comprou-a em 1966; 10 anos depois, ele veio a falecer, e minha tia decidiu que esse tesouro estaria em boas mãos nas de um viciado por leitura.

     Confesso que devo tê-la decepcionado: até o momento, li apenas 16 deles: Yeats, Thomas Mann, Bernard Shaw, Pirandello, O’Neal, T. S. Elliot, Hemingway, Churchill, Gabriela Mistral, Camus, Faulkner, Juan Jamon Jimenez, Steinbeck. Há muito o que ler ainda. Prometo me remediar, tia.

     Ontem mesmo, me aconteceu algo desimportante, mas delicioso: folheando um dos livros, encontrei esquecido entre as páginas um comprovante de matrícula de 1972 do meu primo Luiz Antônio. Preenchido à máquina e assinado pelo então reitor do colégio. Decerto foi usado como marcador de página e dentro do livro ficou.   

     Fora o prazer da leitura e da surpresa da descoberta, me diverti matutando em como, durante esse tempo, aquele pedaço de papel esteve lá, intocado, no escuro, espremido nas folhas, sem perceber os acontecimentos em volta: a censura e o terror impostos pela ditadura militar, o movimento das Diretas Já, a hiperinflação, a Guerra do Golfo, a conquista do tetra e do penta. A tudo ele resistiu e ignorou. Agora, foi trazido à luz para se confrontar com a dureza dos tempos atuais, o pobre desavisado.

     Embora bem conservado, deve estar assustado com as mudanças em torno. A começar pelo falecimento do tio, passando pela mudança de estante e de casa, até o pasmo total com a explosão da vida digital. Que aos poucos vem conquistando (e desviando) a atenção dos leitores e eliminando a própria existência dos comprovantes de matrícula impressos. 

     Pensei em telefonar para meu primo e combinar um encontro para lhe entregar o achado. Acho que ele iria gostar. Mas, no meio do matutar, algo me ocorreu: não seria mais digno devolver o comprovante de matrícula ao lugar onde ele já se acostumou, entre as páginas, ao invés de soltá-lo em um mundo que lhe é estranho e francamente hostil? Não sei se o pedaço de papel estaria mais seguro com meu primo ou sob a proteção de Winston Churchill.

     Tia Paulina talvez esperasse mais de mim: que, depois de ler essas obras-primas da literatura do século XX, minhas preocupações fossem mais profundas e minhas reflexões, mais elevadas. Eis-me pensando sobre a vida e sentimentos de um comprovante de matrícula. 

     Sou um poço de decepções para tia Paulina.

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