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Lembrei

spacess

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 Entro na cozinha para pegar alguma coisa e me detenho, paralisado, olhando para o nada. O que era mesmo? O que eu vim fazer aqui? Não faço ideia. Os bilhetes grudados na porta da geladeira não me ajudam a lembrar. E assim fico por alguns segundos, percorrendo o ambiente com olhos pasmos, um lunático à procura de alguma razão.

     Ando esquecido que é uma coisa horrorosa. É como se uma nuvem de repente nublasse os pensamentos, embaçasse o sentido de tudo. Falar em nuvem, ando mais indeciso que aquela ali passando na janela, que já foi um martelo, agora é uma galinha. Deve estar ventando muito lá em cima, os formatos mudam a cada instante.

      Mas por que me lembrei da nuvem? Dela virá alguma pista que desvende o mistério? Vamos tentar a associação de ideias: nuvem, céu, chuva, quintal, galinha. Em cima da geladeira não há galinha, mas um pinguim de louça assumidamente cafona. Não devia estar dentro do congelador, na temperatura a que está habituado, ao invés de ficar aqui fora, nesse calorão de março?

     Mas me esqueci do que estava dizendo. Ah, sim: o calor. Está mesmo de matar. Hoje dormi sem camisa e com o ventilador ligado. O que é bom: o barulho das pás girando vence qualquer barulho que venha de fora, e a gente dorme feito um inocente. O problema é que, se o tempo virar e esfriar de madrugada – fim de verão adora essas ciladas – dormir com ventilador ligado e sem camisa pode dar em resfriado.

     Opa, resfriado! Bom falar nisso, não posso me esquecer de tomar os remédios. O branco é pra tomar de noite, e o amarelinho, agora de manhã, ou é o contrário? Devo ter anotado em algum lugar que não me lembro. O outro, maiorzão, eu sei é que é depois do almoço. Gostaria muito de não precisar me lembrar de tomar remédios.

     Muito bom, muito bem, mas ainda não me lembro do que vim fazer na cozinha. Atrás da tesoura é que não era. Conferir no calendário quando é o próximo feriado? Arrancar os ímãs de geladeira porque estão atraindo energias estranhas? Fechar a porta da janela pra não entrar gato? Comer uma fruta? Olha que essa penca de bananas está que é uma beleza.

     Beleza… beleza… opa, perigo, campo minado: de certos assuntos é melhor a gente não se lembrar. Pode acender um sentimento distante, uma ilusão desfeita que fingia estar adormecida, mas que queima a gente por dentro, como um fogo que…

     Fogo! É isso! Lembrei: minha mulher me pediu para acender o fogo pra fazer café. Café de coador, como deve ser – de preferência, acompanhado de um biscoito de polvilho. Claro que eu ia me lembrar, está tudo aqui, guardadinho no bestunto, na ponta da língua, cabeça boa é outra coisa.

     Mas onde é mesmo que fica guardado o pó de café? O açúcar para quem pode, o adoçante para quem deve? Os fósforos para acender o fogo? O saco de biscoito? Pires e xícaras? As colheres? 

     Socorro.

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