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O descaso do Universo

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     Dia desses, vendo fotos no jornal sobre o conflito entre Israel e o Hamas, me deparei com uma linda luz de fim de tarde sobre os edifícios bombardeados. Ruínas e escombros em tons de dourado. Mas que petulância a do Sol, parece não entender que no momento os homens não querem saber de entardeceres e esperança.

     O míssel lançado sobre a cidade cruzou o céu noturno, passando exatamente onde estava a estrela, mas não fez nem cosquinha. Uma mulher que estava em terra, sim, reparou em como ela faiscava e fez o pedido mais óbvio.

     Ninguém avisou a Lua que não era para surgir nas brechas da fumaça dos incêndios causados pelas explosões.

     A bala do morteiro desce à terra sem se dar conta do que vai causar na vida de 17 famílias. Pousando (ou nascendo, nunca sei) sobre o campo de batalha, aquele arco-íris só pode estar brincando.

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     O terrorista de metralhadora em punho, disposto a atirar no maior número de pessoas possível, se escondeu atrás de uma palmeira. Não é para isso que existem as palmeiras.

     Honra a todas as armas que inesperadamente falham. Viva a bala perdida que penetra e se aloja numa pedra.

     A luz que reluziu na lâmina da faca do assassino demorou vinte anos-luz para atravessar a Via Láctea. A imagem do ódio era tão grande que chegou intacta à galáxia vizinha. Habitantes de planetas distantes não veem motivo algum para vir nos visitar.

     Não será essa tormenta que trará chuva. O besouro segue seu caminho obstinado desviando das minas terrestres. E, no meio do deserto, soprou uma brisa sentida por 20 soldados que davam seus últimos respiros. Não valeu como refrigério, nem como ilusão, foi só uma brisa, mesmo.

     Sem tomar partido, a terra acolhe em silêncio os corpos tanto de um lado como de outro. Pás e fungadas se encarregam dos sonidos.

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     A qualquer momento, espera-se uma devastadora invasão por terra. Multidões abandonam suas casas em busca de segurança em outro lugar. As crianças se esgoelam, os velhos são carregados nos ombros, os homens cerram os pulsos a jurar vingança. Certo é que o Sol nascerá às 5:27 e vai se pôr às 18:34.

    Não pensem que, diante de tal sofrimento, um terremoto vai mudar de ideia, o inverno poupará seu rigor ou os anéis de Saturno ficarão comovidos. Os ecos dos gritos não vão ultrapassar a atmosfera.

     A indiferença do Universo só não é mais impressionante do que a estupidez dos homens.

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